Canetas emagrecedoras e remédios caros podem elevar preços dos planos de saúde empresariais
Publicado em 06/05/2026 , por G1
Especialistas projetam inflação médica entre 8% e 11% em 2026 e apontam impacto nos próximos reajustes.
A “febre” das canetas emagrecedoras e a maior demanda por terapias avançadas, com medicamentos de alto custo, devem pressionar a inflação médica e podem levar a reajustes mais altos nos planos de saúde empresariais.
A expectativa, segundo especialistas consultados pelo g1, é que os custos médicos subam entre 8% e 11% em 2026.
Segundo pesquisa da consultoria Willis Towers Watson (WTW), os gastos com medicamentos estão entre os principais fatores que puxam os custos de saúde nas Américas — especialmente os remédios mais modernos para obesidade e diabetes.
Ao mesmo tempo, entidades de saúde no Brasil e no mundo seguem discutindo como tratar a obesidade no longo prazo.
No final do ano passado, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou as primeiras diretrizes sobre o uso de canetas emagrecedoras no combate à doença, classificando esses medicamentos como uma ferramenta potencialmente essencial para “ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade e reduzir os danos associados”.
No Brasil, uma série de projetos de lei apresentados no Congresso no ano passado passou a tratar do uso de medicamentos contra a obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS).
Nesse cenário, a avaliação do setor é que, embora os planos ainda não sejam obrigados a cobrir as canetas emagrecedoras, a obesidade vem sendo cada vez mais reconhecida como doença crônica — o que pode influenciar decisões judiciais contra as operadoras, dependendo do caso.
Ainda segundo a pesquisa da WTW, 67% das seguradoras acreditam que medicamentos à base de GLP-1 vão elevar os custos médicos nos próximos três anos. Na prática, isso também pode pressionar novos reajustes dos planos de saúde.
- Esses medicamentos imitam a ação do hormônio GLP-1, produzido pelo próprio corpo.Ele ajuda a controlar o apetite, aumenta a sensação de saciedade e regula a liberação de insulina.
Outros fatores também pesam na inflação médica
Os especialistas explicam que, embora os medicamentos tenham um peso importante, há vários outros fatores que influenciam os custos da saúde, como regulação e judicialização no Brasil, tecnologias mais caras (muitas ligadas ao dólar), comportamento dos usuários, além de desperdícios e fraudes.
- Judicialização é quando as pessoas recorrem cada vez mais à Justiça para resolver questões que não foram solucionadas por outros meios.Na saúde, isso inclui casos em que pacientes acionam os tribunais para obrigar planos a cobrir tratamentos, exames ou medicamentos que não foram autorizados.
Segundo o superintendente técnico e atuarial da Mercer Marsh Benefícios, Thomás Ishizuka, fatores como a frequência de uso do plano e o custo médio dos atendimentos — chamado de “severidade” no jargão do setor — também entram na conta dos reajustes.
A Mercer Marsh estima que a inflação médica fique entre 8% e 9% em 2026, enquanto os reajustes dos planos empresariais devem variar de 8% a 10%. Já a WTW projeta alta de 11% neste ano, mas não detalhou os reajustes dos planos.
Apesar da alta projetada para 2026, especialistas avaliam que a inflação médica deve desacelerar em relação ao ano passado — reflexo de um esforço maior das operadoras para combater fraudes e controlar custos após o aumento das despesas no pós-pandemia.
Dados do Relatório de Tendências Globais de Custos Médicos da Aon, por exemplo, apontam alta de 9,7% nos custos médicos corporativos no Brasil — uma queda de 3,2 pontos percentuais em relação aos 12,9% projetados para 2025.
Segundo o diretor executivo da Mercer Marsh Benefícios, Marcelo Borges, esses esforços se concentraram em duas frentes: mudanças na coparticipação e maior controle sobre reembolsos e rede credenciada.
De um lado, o aumento da coparticipação ajudou a reduzir o uso indevido dos planos — como idas frequentes ao pronto-socorro sem urgência, excesso de exames e repetição de consultas sem necessidade.
Já as regras mais rígidas para reembolsos, diz o executivo, surgiram após a identificação de casos de fraude, em que beneficiários tentavam obter ressarcimentos indevidos.
Por fim, o executivo explica que, nos últimos anos, houve um processo de renegociação das operadoras com hospitais e clínicas da rede credenciada.
Na prática, isso significa que as operadoras revisaram contratos e passaram a adotar medidas para segurar os custos, como pacotes fechados de procedimentos e regras mais claras para diárias hospitalares.
O diretor de Health & Talent da Aon no Brasil, Fabio Martinez, reforça que, mesmo com a desaceleração, o setor ainda enfrenta o desafio de incentivar o uso mais eficiente dos planos de saúde.
“A gestão de custos em saúde precisa levar em conta o acesso a tratamentos mais eficazes, mas também mais caros, principalmente com a inclusão frequente de novas tecnologias e medicamentos no rol da ANS”, conclui.
Fonte: G1 - 05/05/2026
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