O lugar de Flávio Bolsonaro na história de truques e estelionatos eleitorais do Brasil
Publicado em 27/04/2026 , por Folha Online
Dias antes de Fernando Collor se sentar na cadeira de presidente, eu estava em uma fila de banco, como quase todo o mundo preocupado com mais um pacote econômico por vir. Uma poupança mirrada seria juntada na conta-corrente ao salário e ao 13º antecipados. Sairia de férias e temia confisco.
Perto de mim estava uma senhora miúda, que parecia de poucas posses, de lenço na cabeça como tantas mulheres então chamadas de "crentes". "O senhor acha que o homem [Collor] vai pegar o dinheiro que a gente tem na conta?" —perguntou algo assim. Respondi que temia o sequestro da poupança, mas achava difícil que mexessem "na conta".
Collor tomou posse em 15 de março de 1990. Na sexta, 16, seu governo confiscou quase todos os dinheiros, da conta-corrente inclusive, o que viria a ser também um calote parcial na dívida pública. Até hoje me lembro do vestido estampado de flores e do rosto enrugado da senhorinha, mais atilada do que eu, de um tempo em que redes sociais eram relações de pessoas e mais de um quarto das casas nem TV tinha.
No debate do segundo turno, em 14 de dezembro de 1989, Collor dissera que seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva, daria calote na dívida do governo e também na poupança —Lula pregara a "renegociação" da dívida.
O "caçador de marajás" queria a "esquerda perplexa" e a "direita indignada". Em parte, cumpriu o que prometeu, como a liberalização caótica da economia. Metido em um bando de corruptos, demagogo delirante e inepto como os presidentes da direita pura, caiu por não ter apoio de ninguém, pobres ou ricos (afetados pela liberalização, que pregavam da boca para fora). Caiu também porque a hiperinflação logo voltou e se vivia a década de maior empobrecimento da República.
Essa crônica de um tempo em que quase metade da população nem havia nascido serve para lembrar nossa história de truques e estelionatos eleitorais.
Flávio Bolsonaro chamou de "fake news" reportagem da Folha que relatou o plano fiscal em estudo por assessores do candidato, que prega redução da despesa pública e nenhum aumento direto de imposto. Não é possível fazer ajuste sem conter a alta de despesa, na maior parte benefícios sociais, menos ainda sem aumentar imposto. Bolsonaro filho mente agora ou teria de mentir depois de eleito. Dúvida: neste mundo ideologicamente revolto, estelionatos ou planos econômicos amargos fazem qual diferença?
Quebras mais ou menos escandalosas de promessas arruinavam o prestígio de presidentes. O maior de todos os estelionatos foi o do governo de José Sarney, em 1986. Assim que passou a eleição para o Congresso, cancelou o Plano Cruzado, que congelava preços. O MDB elegeu a maioria da Câmara, o que só aconteceu então e na eleição de 1945, em período democrático. Fraude e hiperinflação levaram à breca o prestígio de Sarney.
Dilma Rousseff 2 chegou com plano surpresa de ajuste fiscal e reajuste de energia. Em três meses, sua nota "ruim/péssimo" foi de 24% para 62%. A desvalorização do real no início de FHC 2 derrubou o prestígio do tucano para sempre e ajudou a abrir a estrada para Lula 1.
Jair Bolsonaro, golpista, bárbaro e repulsivo de vários modos, que causou morticínio e a maior miséria do século, em 2021, quase se reelegeu. Javier Milei esfolou a maioria dos argentinos por dois anos antes de ganhar uma eleição legislativa. Goste-se ou não do método, sob Lula 3 houve melhorias sociais e materiais. Lula 4 está por um fio.
Fonte: Folha Online - 25/04/2026
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