Bets e a areia movediça do endividamento no Brasil
Publicado em 06/05/2026 , por Folha Online
Eu passei anos da minha vida endividada. E, por "endividada", não me refiro àquele endividamento da compra planejada de um carro ou um imóvel, uma geladeira ou até de um item mais banal —uma roupa ou um celular novo—, em que o sujeito paga suas parcelas religiosamente a cada dia de vencimento. Me refiro àquele endividamento que mais parece areia movediça, que começa com um passo desatento e, pouco a pouco, vai sufocando, engolindo tudo, até não sobrar nada.
Cheguei a tal ponto que o salário que entrava na minha conta servia apenas para cobrir o cheque especial e, todo dia 1° de cada mês, meu saldo chegava à exorbitante quantia de zero reais.
Meu primeiro passo na areia movediça foram as comprinhas inocentes —uma blusinha ali, uma bolsa acolá. Aprendi, nos filmes da Sessão da Tarde, que, quando se trata de areia movediça, quanto mais a vítima se mexe, mais rápido ela afunda. No meu caso, o combustível que me levou a afundar quase que irremediavelmente nas dívidas foi uma mistura explosiva de descontrole emocional e ignorância financeira.
A ideia aqui não é me colocar no lugar de vítima. Ironicamente, contar a história do meu endividamento e da minha tentativa de sair daquela areia movediça me abriu as portas para uma nova carreira. A verdade é que meu endividamento me trazia muita culpa, vergonha, dor de cabeça, mas nunca chegou ao ponto de me deixar com fome, nem me impediu de ter eletricidade ou gás em casa. E, por isso, jamais poderá se comparar ao que passam hoje dezenas de milhões de brasileiros.
Em abril deste ano, o Brasil atingiu a maior taxa de endividamento da sua história: 80,4% das famílias estão hoje endividadas. A areia movediça das dívidas puxa pessoas para o sufocamento orçamentário numa velocidade nunca antes vista. No fim de 2024, eram mais de 73 milhões de brasileiros com o nome negativado. Em fevereiro deste ano, esse número já passava de 81 milhões —quase metade do Brasil. O caldo desastroso é resultado de crédito fácil e juros altíssimos, mas não só. É fato que temos os juros mais elevados em duas décadas, mas é preciso muito cinismo (ou mau-caratismo puro) para fechar os olhos para os impactos das bets.
Um recente estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School mostrou que as apostas online se tornaram a principal causa de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto do crédito e dos juros no orçamento.
O impacto dessa indústria do endividamento, turbinada pelo acesso digital e maquiada de legalidade por políticos mal-intencionados, é desastroso não só no âmbito pessoal. Nos últimos dois anos, a inadimplência causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista, o equivalente às vendas de Natal de 2024 e 2025 somadas.
Por essas e outras, me enfurece abrir o jornal e dar de cara com títulos como "É mais fácil culpar as bets". Mais ainda quando a "coluna de opinião", como quem não quer nada, argumenta que "Apenas no ano passado, as operações de jogos online já contribuíram com mais de R$ 9,95 bilhões em impostos e taxas". A coluna esquece, no entanto, de mencionar que o mesmo setor teve receita bruta de R$ 37 bilhões no mesmo ano. A omissão não surpreende, afinal não dá pra esperar isenção do ex-presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias.
É nesse cenário um tanto desolador que surge o Desenrola 2, lançado pelo governo na semana passada. O programa é, sem dúvida, uma corda lançada a quem está afundando em dívidas e tangencia, embora muito modestamente, a questão das plataformas de apostas ao incluir o bloqueio das apostas online pelo período de um ano para quem participar do programa. Mas é fato que está longe de resolver a questão. O mais provável é que, passado o alívio momentâneo, e ainda suscetível às promessas sedutoras das bets, o povo volte a afundar na mesma areia movediça.
Fonte: Folha Online - 05/05/2026
Notícias relacionadas
- 06/05/2026 Bets e a areia movediça do endividamento no Brasil
- 06/05/2026 Desenrola é gambiarra; crédito barato é solução?
- 06/05/2026 Desenrola 2.0: Serasa aponta 82,8 milhões de endividados no Brasil; 47% das dívidas são com instituições financeiras
- 06/05/2026 Consignado do INSS e saque do FGTS: o que muda para aposentados com o Desenrola 2.0?
- 06/05/2026 MRV lança série para esclarecer dúvidas sobre financiamento imobiliário
- 06/05/2026 Planalto acelera agenda de alívio financeiro sob vigilância do mercado
- 05/05/2026 DISPENSA ELETRÔNICA DE LICITAÇÃO Nº990029-00056/2026
- 05/05/2026 Lula diz que mercado transforma pessoas com dívida baixa em 'clandestinos'
- 05/05/2026 Novo Desenrola dará até 90% de desconto em dívida, limitada a R$ 15 mil após renegociação
- 05/05/2026 Desenrola 2.0: governo vai usar dinheiro esquecido em bancos para garantir renegociação de dívidas
Notícias
- 06/05/2026 Consignado do INSS e saque do FGTS: o que muda para aposentados com o Desenrola 2.0?
- Desenrola 2.0: Serasa aponta 82,8 milhões de endividados no Brasil; 47% das dívidas são com instituições financeiras
- Posto BR não tem direito exclusivo sobre as cores da bandeira, diz Justiça
- Canetas emagrecedoras e remédios caros podem elevar preços dos planos de saúde empresariais
- Governo calcula que aumento de etanol na gasolina vai reduzir 454 milhões de litros em importação
- Desenrola é gambiarra; crédito barato é solução?
- Dias Toffoli vota por liberar revisão da vida do INSS toda em alguns casos; entenda
- Planalto acelera agenda de alívio financeiro sob vigilância do mercado
Perguntas e Respostas
- Quanto tempo o nome fica cadastrado no SPC, SERASA e SCPC?
- A consulta ao SPC, SERASA ou SCPC é gratuita?
- Saiba quais os bens não podem ser penhorados para pagar dívidas
- Após quantos dias de atraso o credor pode inserir o nome do consumidor no SPC ou SERASA?
- Protesto de dívida prescrita é ilegal e dá direito a indenização por danos morais
- Como consultar SPC, SERASA ou SCPC?
- ACORDO - Em caso de acordo, após o pagamento da primeira parcela o credor é obrigado a tirar o nome do devedor dos cadastros de SPC e SERASA ou pode mantê-lo cadastrado até o pagamento da última parcela?
- CHEQUE – Não encontro à pessoa para qual passei um cheque que voltou por falta de fundos. O que posso fazer para pagar este cheque e regularizar minha situação?
- Problemas com dívidas? Dicas para você não entrar em desespero
- PROTESTO - Qual o prazo para o protesto de um cheque, nota promissória ou duplicata? O protesto renova o prazo de prescrição ou de inscrição no SPC e SERASA?
- Cartão de Crédito: Procedimentos em caso de perda, roubo ou clonagem
- O que o consumidor pode fazer quando seu nome continua incluído na SERASA ou no SPC após o pagamento de uma dívida ou depois de 5 anos?
- Posso ser preso por dívidas ?
- SPC e SERASA, como saber se seu nome está inscrito?
- Acordo – Paga a primeira parcela nome deve ser excluído dos cadastros negativos (SPC, SERASA, etc)
