Desenrola é gambiarra; crédito barato é solução?
Publicado em 06/05/2026 , por Folha Online
O governo está lançando o novo programa Desenrola para reduzir o endividamento privado.
Enquanto se discute como o programa afetará a economia no curto prazo e a eleição, o economista padrão –termo do colunista Vinicius Torres Freire para designar gente, como eu, que guia seus argumentos pela pesquisa em economia– se pergunta sobre os efeitos no médio e no longo prazo.
Por um lado, a expectativa de que dívidas serão renegociadas pode aumentar a demanda por empréstimos no futuro, o risco e as taxas de juros. Uma chance maior de renegociação aumenta o custo de emprestar para os bancos, e esse custo tende a ser passado para quem toma emprestado.
Esse canal teórico tem respaldo empírico. Um dos resultados mais claros da literatura vem do trabalho de Gross, Kluender, Liu, Notowidigdo e Wang. Eles estudam os efeitos de uma lei nos Estados Unidos que dificultou o não pagamento de dívida das pessoas e mostram que, após a lei, os juros nas modalidades de crédito afetadas de fato caíram.
Por outro lado, argumenta-se que juros são altos demais no Brasil e, por isso, dívidas que podem parecer razoáveis de início vão se tornando impagáveis. Assim, apesar de seus problemas, faria sentido ter programas de renegociação.
Corroborando esse ponto, o trabalho de Bonomo, Cavalcanti, Chertman, Fantinatti, Hannon e Santos mostra que a inadimplência, por si só, não explica o tamanho das taxas de juros.
Há, portanto, pelo menos duas razões para as altas taxas de juros ao consumidor no Brasil (além da enorme taxa básica, a Selic): a inadimplência é alta e o nível de competição existente não consegue levar as taxas para níveis próximos ao custo dos empréstimos.
Há medidas para reduzir o custo dos empréstimos pessoais. Em março de 2025, o governo instituiu o Crédito do Trabalhador, uma modalidade de crédito similar ao crédito consignado (direcionado majoritariamente para aposentados e funcionários públicos) para quem trabalha no setor privado com carteira assinada.
Essa modalidade de crédito tem duas características importantes: o pagamento do empréstimo é descontado automaticamente do salário —o que reduz em muito as chances de calote— e a forma de concessão dos empréstimos estimula maior competição entre os bancos. Os juros, portanto, são bem mais baixos que os do crédito pessoal sem garantias.
Em seu primeiro ano, o programa movimentou cerca de R$ 120 bilhões em empréstimos para cerca de 10 milhões de pessoas.
O economista padrão aplaude a medida que reduz o custo do crédito, mas fica com uma pulga atrás da orelha. O site do Ministério do Trabalho enfatiza que o Crédito do Trabalhador possibilita que as pessoas saiam do cheque especial e quitem suas dívidas com juros elevados. Parece ótimo, mas será que as pessoas não estão se endividando mais ainda?
O Desenrola é uma gambiarra, não sabemos se o benefício no presente compensa os custos futuros. O Crédito do Trabalhador é uma solução, merece mais atenção. Mas o grande endividamento, apesar das altas taxas de juros, levanta questões.
Num mundo em que as pessoas sempre tomam decisões certas e racionais, aumentar o acesso ao crédito permitindo oferecer salário futuro como garantia é ótimo. Mas o economista padrão sabe, há tempos, que o mundo não é exatamente assim.
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Fonte: Folha Online - 05/05/2026
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