3 efeitos econômicos da guerra no Irã além do aumento do preço do petróleo
Publicado em 12/03/2026 , por G1
As repercussões econômicas do conflito em curso no Oriente Médio vão muito além da produção de combustível e serão sentidas em todo o mundo em setores essenciais como saúde e alimentação.
Pouco mais de uma semana após o início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, o conflito já causa impacto na economia global.
Na segunda-feira (9), o preço do petróleo bruto Brent e WTI, referências do mercado internacional, ultrapassou a marca de US$ 100 (R$ 520) pela primeira vez desde 2022, embora tenha caído para menos de US$ 95 (R$ 494) no mesmo dia. Em comparação, em 27 de fevereiro, um dia antes do início das hostilidades, o preço rondava os US$ 70 (R$ 364) por barril.
Este aumento nos preços dos combustíveis ocorreu principalmente devido ao virtual fechamento do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, após o governo iraniano ameaçar navios que tentassem atravessar essa hidrovia, por onde passa aproximadamente 20% do petróleo e gás do mundo.
Mas, embora o aumento dos preços do petróleo fosse claramente esperado, especialistas prevêem que suas repercussões serão sentidas em outras áreas da economia e em diferentes partes do mundo.
1. Produção de alimentos sob riscoO conflito atual está afetando os principais exportadores de fertilizantes. Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são quatro dos maiores exportadores globais de fertilizantes nitrogenados, segundo dados do Observatório de Complexidade Econômica.
Esse tipo de fertilizante é produzido a partir de gás natural e é utilizado em plantações que produzem cerca de metade do suprimento mundial de alimentos.
Embora a maioria dos produtores de fertilizantes da região tenha continuado operando apesar da guerra, a Qatar Energy, uma das principais produtoras de ureia, teve que suspender suas operações após o fornecimento de gás ter sido interrompido na semana passada devido a ataques de drones e mísseis iranianos.
Além disso, as empresas não conseguem exportar seus fertilizantes devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um terço do suprimento mundial de fertilizantes, de acordo com a Bloomberg.
A isso se soma o fato de o Irã também ser exportador de fertilizantes e a decisão da China, adotada no final de 2025, de suspender as exportações de fertilizantes fosfatados e restringir severamente as exportações de ureia até agosto de 2026, com o objetivo de garantir o abastecimento aos agricultores locais.
Como consequência, os preços dos fertilizantes já começaram a subir significativamente. No Porto de Nova Orleans, principal ponto de entrada desses produtos nos EUA, o preço saltou de US$ 516 (R$ 2.684) por tonelada métrica para US$ 683 (R$ 3.552) durante a primeira semana da guerra.
De acordo com dados da Federação Americana de Escritórios Agrícolas (FAR), 25% das importações de fertilizantes do país ocorrem entre março e abril de cada ano.
Analistas prevêem que, caso o conflito continue, os consumidores começarão a sentir o impacto nos preços dos alimentos dentro de um a três meses, enfrentando custos mais altos e escassez, já que as colheitas serão menores sem a quantidade necessária de fertilizantes.
“O aumento repentino dos preços dos alimentos e combustíveis, impulsionado pela escalada do conflito no Oriente Médio, pode ter um efeito dominó que agravará a fome para as populações vulneráveis na região e em outras partes do mundo”, alertou o Programa Mundial de Alimentos da ONU.
2. Restrição da distribuição global de medicamentosA guerra também está impactando a cadeia de suprimentos global de medicamentos e produtos farmacêuticos, devido principalmente aos ataques sofridos por Dubai, um importante centro logístico no setor farmacêutico global.
Dubai abriga o aeroporto internacional mais movimentado do mundo, que recebeu aproximadamente 95 milhões de passageiros em 2025. Este aeroporto também é um importante centro de distribuição de cargas para medicamentos, especialmente aqueles que exigem manutenção da cadeia de frio.
A indústria farmacêutica da Índia, a maior fornecedora mundial de medicamentos genéricos e que produz 60% das vacinas do mundo, tem como o aeroporto de Dubai um ponto estratégico de distribuição.
Dubai também possui o Porto de Jebel Ali, considerado o nono porto de cargas mais movimentado do mundo e o maior do Oriente Médio. Cerca de 400 empresas farmacêuticas e de saúde de 60 países operam no porto.
Os ataques militares iranianos causaram danos tanto ao porto quanto ao aeroporto de Dubai, interrompendo as operações normais. Embora existam rotas alternativas, muitas têm menor capacidade, exigem dias adicionais de viagem e custos mais elevados, o que pode aumentar o preço e reduzir a disponibilidade desses produtos.
3. Produção de metais, substâncias químicas e eletrônicosA distribuição de elementos químicos como enxofre e de matérias-primas como alumínio também está sendo impactada pela guerra.
Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Irã estão entre os principais exportadores de enxofre, um subproduto do refino de petróleo e gás. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, 24% da produção mundial de enxofre tem origem no Oriente Médio.
Grande parte dessa produção é utilizada para fertilizantes, mas também tem usos importantes na extração de minerais e metais como cobre e níquel, essenciais para a produção de eletrodomésticos, veículos, redes elétricas, semicondutores, baterias e materiais como aço inoxidável.
Durante a primeira semana do conflito, companhias mineradoras de níquel na Indonésia — país responsável por mais de 50% do níquel mundial — anunciaram cortes na produção devido a interrupções no fornecimento dos países do Golfo, que fornecem 75% do enxofre utilizado por essas empresas.
Como o ácido sulfúrico — produzido com enxofre — é um dos componentes mais importantes para a fabricação de semicondutores e chips, interrupções no fornecimento podem impactar a produção de inúmeros produtos essenciais na vida moderna, como smartphones, computadores, cartões de memória, veículos e dispositivos eletrônicos.
Desta vez, há um fator adicional: a alta demanda por chips por parte de empresas que desenvolvem e implementam modelos de inteligência artificial.
Fonte: BBC / G1
Fonte: G1 - 12/03/2026
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