Presidente da FecomercioSP critica fim da 6x1 e questiona voto de quem recebe Bolsa Família
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Presidente da FecomercioSP critica fim da 6x1 e questiona voto de quem recebe Bolsa Família

Publicado em 29/06/2026 , por Folha Online

O empresário Abram Szajman deixou a presidência da FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo) em maio, após 42 anos no cargo. O novo eleito é Ivo Dall’Acqua Júnior, que passará a representar os interesses de 1,8 milhão de empresários do setor em meio ao debate sobre a mais profunda mudança nas relações de trabalho dos últimos anos: o fim da escala 6x1.

Em entrevista de quase três horas na sede da entidade, em duas sessões alternadas, Dall’Acqua criticou as propostas de redução da jornada de trabalho no Brasil, que classifica como fruto de "populismo explícito". Para ele, mudanças desse tipo deveriam ser negociadas entre patrões e empregados, e não impostas pelo Estado –e muito menos em ano eleitoral.

Ele também atribui a alta informalidade do mercado de trabalho a programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, critica o que chama de "penduricalhos" da legislação trabalhista e diz que o Brasil remunera "mais o tempo livre do que o tempo trabalhado".

O novo presidente defendeu ainda que beneficiários de programas sociais sejam estimulados a buscar autonomia financeira e afirmou que seria "uma condição interessante" restringir o direito de voto de quem recebe esse tipo de auxílio. Ele disse que isso já ocorre em alguns países desenvolvidos, mas não dá exemplos.

[Duas semanas após a entrevista, ao ser questionado sobre que países restringiriam a participação de eleitores beneficiários de programas sociais, Ivo mandou uma retificação à coluna. "Afirmei, de maneira equivocada, que em países desenvolvidos os beneficiários desses programas não podem votar. Foi um equívoco de minha parte, que faço questão de corrigir. Num país democrático todos devem ter o direito ao voto. É fundamental que assim seja e permaneça.

Acredito sim na relevância e necessidade dos programas sociais enquanto não construirmos um País mais justo para todos. Aliás, temos muitos exemplos de programas sociais dedicados às pessoas em situação de vulnerabilidade no sistema comércio onde estou há mais de 40 anos. O que defendo, e não transmiti bem, é a adoção de mecanismos eficazes que condicionem a manutenção do benefício à comprovação de sua necessidade e a busca de uma vaga formal de emprego, modelo adotado, com diferentes formatos, em alguns países."]

Na conversa, o empresário afirmou que chega ao comando da entidade "com os pés no presente, olhar no futuro, mas respeitando o passado. Tenho que cuidar desse legado [na Fecomércio] e adequá-lo às necessidades que esses tempos mais recentes têm exigido", diz.

"Abram é uma pessoa de poucas palavras e de ações eficientíssimas. Eu sou um camarada mais conversador", conta.

De fato, a cada pergunta surge uma história diferente. Geralmente sobre Araraquara, no interior de São Paulo, onde nasceu, trabalhou no varejo e acabou se tornando líder sindical "por acidente", ou sobre seu hobby favorito, o teatro.

Sua personalidade plural pode combinar com os desafios que terá pela frente. Além de enfrentar a pressão em torno do fim da escala 6x1, Dall’Acqua assumirá os conselhos regionais paulista do Senac, voltado à educação profissional, e do Sesc, uma das principais instituições de cultura, lazer e bem-estar social do país. Tanto ele quanto as duas entidades completarão 80 anos em 2026. À coluna, ele também revela os planos para a próxima expansão das instituições.

'O poder público acaba atendendo às pressões daqueles que têm melhor condição de briga ou prometer fazer maiores estragos, e isso se reflete em toda a sociedade'

'Estamos vivendo um momento de populismo explícito, seja de direita, seja de esquerda'

'A partir do momento em que você abre mão da autonomia, deixa de ser cidadão. Em alguns países desenvolvidos, quem recebe programas sociais não pode votar'

'Aprendemos muito disso com a Lina Bo Bardi, no Sesc Pompeia. Tanto que vamos concluir, em São Bernardo do Campo, o último projeto dela que nunca chegou a ser construído'

O senhor passou pelo varejo, foi juiz classista da Justiça do Trabalho e militou no sindicalismo patronal. Qual desses lados o ajudou mais a entender os conflitos entre capital e trabalho? Eu diria que não deveria haver conflito. Capital e trabalho são complementares. O capital precisa investir e confiar e o trabalho precisa entregar resultado. Quando isso funciona, todos ganham. Boas empresas geram bons empregos, e bons empregos geram renda e bem-estar.

O problema é que a economia é muito concentrada. Na FecomercioSP, 2% das empresas geram cerca de 35% dos empregos, enquanto os 98% restantes respondem por 65% e não têm condições de prover benefícios que as maiores têm.

Essas empresas vivem sufocadas. Um exemplo é o Simples Nacional, cujo teto está defasado há mais de dez anos. Quando uma pequena empresa sai desse enquadramento, muitas vezes perde competitividade. Estamos sempre corrigindo problemas em vez de criar condições para crescer.

O poder público acaba atendendo às pressões daqueles que têm melhor condição de briga ou prometer fazer maiores estragos, e isso se reflete em toda a sociedade. Falta investimento em infraestrutura, mobilidade e planejamento de longo prazo. Em cidades como São Paulo, as pessoas passam horas no trânsito todos os dias. É tempo perdido de trabalho, de convivência familiar e até de lazer.

Por que a federação não apoia o fim da escala 6x1? Tudo que possa trazer bem-estar é legítimo. O problema é que essas mudanças precisam ser construídas por negociação. Nas audiências públicas, não ouvi dos representantes dos trabalhadores argumentos objetivos do ponto de vista econômico. Os argumentos eram baseados na inspiração, no sonho, na projeção.

Quando a gente traz a questão econômica, dizem que estamos mercantilizando o trabalho. Tudo que conquistamos em proteção ao trabalhador foi sendo construído ao longo do tempo, por negociação.

O trabalhador é parceiro do empregador. Eles constroem juntos. Não podemos trabalhar nessa lógica de "empresa exploradora" contra "empregado sacrificado". As coisas custam e precisam ser feitas com diálogo.

Mas quais seriam os problemas do fim da escala 6x1? Você não pode entregar algo tamanho único, sendo que as atividades têm características diversas.

Na saúde, por exemplo, a maior parte dos trabalhadores já atua em escala 12x36. Você não pode simplesmente impor dois dias de descanso para todo mundo sem desmontar um modelo que funciona.

Em todos os países existe uma jornada máxima. A Alemanha tem uma jornada teto semanal de 48 horas. O tempo médio que o trabalhador alemão dedica à empresa é de 34 horas e meia por semana. Mas tudo isso foi decorrente de negociação, por atividade, por local e adequação. Nós temos uma jornada teto de 44 horas. A média da nossa jornada de trabalho é de 38 horas.

Mas a proposta ganhou enorme apoio popular. Isso não deveria pesar? Claro que pesa. Faça a pergunta para qualquer trabalhador: "Você quer trabalhar menos e ganhar a mesma coisa?".

O problema é que toda decisão tem custo e consequência. Estamos vivendo um momento de populismo explícito, seja de direita, seja de esquerda. Até quem sabe que isso [o fim da escala 6x1] é uma tremenda bobagem ficou com medo de votar contra para não perder voto.

O próprio relator da PEC [deputado Leo Prates (Republicanos-BA)], que é engenheiro e sabe fazer conta, já percebeu que não pode sair da forma como ela foi apresentada inicialmente porque cria dificuldades até para o setor público, especialmente para as prefeituras.

É necessário estabelecer um limite constitucional e, dentro dele, trabalhadores e empresas negociam a melhor solução. Se a produtividade aumenta, os ganhos podem ser compartilhados. É assim que as relações de trabalho evoluem.

Um restaurante que funciona todos os dias, por exemplo, teria de contratar mais gente. O salário nominal pode continuar igual, mas quem trabalha nesse tipo de estabelecimento ganha muito com a divisão das gorjetas. Se aumentar o número de funcionários, a fatia de cada um diminui.

Além disso, aumenta o custo da empresa, que terá de contratar mais pessoas ou mudar completamente a forma de atendimento. Em país nenhum você tem 30 dias de férias após um ano de trabalho, além de 52 descansos semanais remunerados e 12 feriados.

Você remunera mais o tempo livre do que o tempo trabalhado. É aquilo que o Judiciário odeia quando chamamos de ‘penduricalhos’, mas há penduricalhos espalhados por toda a legislação trabalhista.

A deputada [Erika Hilton (PSOL)] ainda levou [à Câmara] uma empresária que vende café a R$ 25 no Shopping Iguatemi e mostrou aquilo como se fosse a realidade do Brasil. Quero ver abrir uma cafeteria na Avenida Nordestina, em São Miguel Paulista, vendendo café a R$ 2 e manter uma escala 4x3.

O Brasil é muito desigual. O abismo está há 500 metros de distância.

Outra crítica feita à proposta é a de que ela aumentaria a informalidade. O senhor concorda? Estamos discutindo regras para cerca de 40 milhões de trabalhadores com carteira assinada, enquanto outros 40 milhões vivem da informalidade.

A experiência mostra que, muitas vezes, quando o custo da formalização aumenta, cresce também o trabalho informal. A Lei das Domésticas tinha o objetivo de ampliar a proteção, mas o número de trabalhadores formalizados caiu. Muitas diaristas perceberam que ganhavam mais trabalhando por diária do que com carteira assinada.

A informalidade sempre foi um problema crônico no Brasil, mas críticos afirmam que ela se agravou após a reforma trabalhista de 2017, que a Fecomercio sempre apoiou. Vou continuar apoiando. A informalidade não decorre da reforma trabalhista. Ela aumenta quando você cria programas de proteção social que têm porta de entrada, mas não têm um itinerário nem porta de saída.

O senhor está falando do Bolsa Família? Também. Do Bolsa Família, do seguro-defeso e de outros programas.

A pessoa deve receber o benefício social, mas também precisa ser preparada para conquistar autonomia. Se o programa apenas transfere renda, sem criar esse percurso, acaba estimulando a informalidade.

O Bolsa Família exige frequência escolar e vacinação das crianças. Isso não seria uma contrapartida? Isso é obrigação da sociedade. Estou falando de outra coisa: preparar a pessoa para deixar de depender do benefício.

A partir do momento em que você abre mão da autonomia, deixa de ser cidadão. Em alguns países desenvolvidos, quem recebe programas sociais não pode votar.

Esse modelo deveria ser adotado no Brasil? Seria uma condição interessante. Antes o coronel dava uma bota e, depois da eleição, dava o outro pé. Só mudou o endereço do coronel.

O Sesc e o Senac completam 80 anos. Qual será a prioridade da sua gestão? No Senac, a expansão é impulsionada pelo avanço do ensino médio técnico. No ano passado reunimos cerca de 10 mil jovens interessados nessa modalidade e registramos três candidatos por vaga. Hoje oferecemos 17 especialidades e vamos precisar ampliar essa oferta.

No Sesc, seguimos investindo em novas unidades, mas também em formatos mais compactos, principalmente no interior, para levar cultura, esporte e lazer a cidades que hoje não comportam uma estrutura do tamanho das existentes.

Onde estão os principais projetos do Sesc? Na capital, estamos avançando em São Miguel Paulista e Campo Limpo, temos um projeto pronto para Pirituba e estudamos uma unidade na região de Sapopemba. Também vamos inaugurar a unidade Parque Dom Pedro, que fará um diálogo muito interessante com o Mercadão e o Catavento, contribuindo para a revitalização do centro da cidade.

No interior, a ideia é levar unidades menores, mas com todos os serviços do Sesc, para mais cidades.

Muitas vezes alguém vai ao Sesc para fazer ginástica e, sem planejar, acaba passando por uma exposição, assistindo a um espetáculo ou entrando numa biblioteca. Essa convivência transforma as pessoas.

Aprendemos muito disso com a Lina Bo Bardi, no Sesc Pompeia. Tanto que vamos concluir, em São Bernardo do Campo, o último projeto dela que nunca chegou a ser constru&ia

Fonte: Folha Online - 28/06/2026

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