Dívida no cartão pode dobrar em menos de um ano sem renegociação
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Dívida no cartão pode dobrar em menos de um ano sem renegociação

Publicado em 29/06/2026 , por Folha Online

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Deixar de pagar a fatura do cartão de crédito pode fazer o valor da dívida dobrar em oito meses, segundo simulação feita com base em taxas médias divulgadas pelo Banco Central em abril, com ajuda de especialistas de instituições financeiras e de finanças pessoais. Os cálculos consideram que a fatura deixou de ser paga ao longo desse período, sem renegociação.

Esse cenário, embora não seja o mais comum, representa um risco para uma parcela crescente de brasileiros. Dados do Banco Central de abril mostram que 74,3% de todo o saldo movimentado na carteira de cartões não tem cobrança de juros, e o crédito rotativo representa 2,7% do total de dívidas das famílias brasileiras.

Ainda assim, no primeiro trimestre deste ano, a concessão de crédito no rotativo somou R$ 109,7 bilhões, alta de 9,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, um sinal de que o grupo que não consegue quitar a fatura está crescendo e enfrenta um dos créditos mais caros do mercado.

Se a fatura do cartão não é quitada na data do vencimento, o saldo total ou parcial entra no crédito rotativo, modalidade com os juros mais altos do sistema financeiro brasileiro. Em abril de 2026, a taxa média do rotativo chegou a 432,1% ao ano, segundo o Banco Central, cerca de 14% ao mês. Sobre esse saldo, podem incidir multa de até 2% e juros de mora de até 1% ao mês, conforme as condições previstas em contrato entre o cliente e a instituição financeira.

Para evitar o efeito bola de neve sobre o saldo devedor, há duas regras do Banco Central. A dívida só pode ficar no rotativo por 30 dias, até o vencimento da fatura seguinte. Se o valor não for pago, o saldo devedor deverá ser parcelado em condições mais vantajosas, mas cada instituição define as condições oferecidas. Em abril, a taxa média do parcelado era de 188,1% ao ano, segundo o BC, cerca de 9% ao mês.

Além disso, desde janeiro de 2024, uma regra aprovada pelo Congresso e regulamentada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) limita o total de juros e encargos financeiros a 100% do valor original da dívida. Uma fatura não paga de R$ 1.000, por exemplo, não pode gerar mais do que R$ 1.000 em encargos, limitando o saldo devedor total a R$ 2.000.

"O endividamento não sobe de forma explosiva, mas isso não blinda o tomador de uma dívida que ainda cresce com velocidade alta. Para muita gente, já é um cenário impagável", diz Juliana Inhasz, professora do Insper.

As instituições financeiras podem oferecer renegociações ou outras formas de acertar as contas com o devedor antes que a dívida dobre de valor. Não é incomum, por exemplo, que bancos proponham descontos grandes para que o cliente acerte uma fração do saldo devedor.

A Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços) afirma que o cenário da simulação, com ausência total de pagamento por meses, não reflete o comportamento da maioria das pessoas. Segundo pesquisa feita pelo Datafolha a pedido da entidade em março de 2026, 85% dos entrevistados afirmaram ter quitado integralmente a última fatura.

O vice-presidente executivo da Abecs disse, em nota, que as pesquisas feitas nos últimos dez anos têm indicado estabilidade no comportamento do consumidor, com uma parcela entre 85% e 90% dos entrevistados usando o cartão de crédito de maneira saudável e a favor da organização financeira, com o pagamento da fatura em dia.

Segundo Juliana, o cartão deve ser visto como antecipação do salário, não como forma de ampliar a renda. "O cartão expande o limite disponível e cria a sensação ilusória de que você tem muita renda. Quem não tem organização financeira acaba devendo, inclusive em vários cartões, sem perceber."

Para Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), há risco de mau uso mesmo se o pagamento da fatura não atrasar. O especialista diz que o parcelado sem juros é uma comodidade, mas a recomendação é considerar que aquela parcela da renda já estará comprometida.

Ainda segundo ele, a consequência mais grave do superendividamento no cartão não é a dívida em si, mas o que vem depois: a perda de acesso ao crédito. "Ficar negativado dificulta o acesso a outros serviços financeiros úteis, como contratar seguro e outras linhas de financiamento, que é justamente algo que um devedor costuma precisar", diz.

Para quem tem mais de um cartão, a professora do Insper recomenda tratá-los como um único limite de crédito. "Cartões com anuidade, então, precisam ser colocados na ponta do lápis: se a anuidade custa mais do que os benefícios oferecidos, não faz sentido", afirma.

Schiozer também considera estratégico estabelecer um limite claro de comprometimento da renda com o cartão, entre 30% e 40% no máximo, e deixar o vencimento da fatura próximo à data de recebimento do salário, para comparar em tempo real quanto está devendo com o que está prestes a receber.

Para quem já está endividado, os dois especialistas recomendam renegociar a dívida com o banco, buscando uma linha com taxa menor, e reduzir o padrão de consumo. "Nem sempre é fácil, mas é preciso olhar e entender onde cortar no consumo para encaixar a dívida no orçamento", diz Schiozer.

Fonte: Folha Online - 29/06/2026

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