Azul cortou 5% da capacidade após escalada do preço do combustível, diz CEO
Publicado em 08/06/2026 , por Folha Online
Sob impacto do aumento do preço do QAV (querosene de aviação), a Azul cortou até o momento cerca de 5% de sua capacidade, disse à Folha o CEO da companhia aérea, John Rodgerson. A medida, segundo ele, abrange todos os tipos de voos: internacionais e domésticos, incluindo os regionais e os que operam em grandes aeroportos do país.
"Até agora nós cortamos mais ou menos 5% da nossa capacidade. E, se você pega uma empresa do nosso tamanho, isso vai refletir em milhões de passageiros ao longo de um ano. A gente espera que esta guerra se resolva logo", afirma o executivo à reportagem. "[O corte] É internacional, regional e para cidades grandes também. Curitiba-São Paulo não tem o mesmo número de frequências que tinha antes. Tem que cortar geral."
De acordo com Rodgerson, a empresa tem seguido duas estratégias: ajuste de malha, com redução de rotas, e diminuição no número de frequências.
"Acho que nenhuma empresa aérea do mundo tem capacidade para repassar tudo isso [aumento dos custos] para o cliente. Todo mundo vai ficar um pouco menos rentável neste ano por causa da guerra."
O CEO da Azul diz que o cenário desfavorável ao setor não provocará um novo Chapter 11 (equivalente à recuperação judicial) para a companhia.
"Nós saímos do Chapter 11 em fevereiro com alavancagem muito menor do que as outras [companhias aéreas brasileiras] quando elas saíram. A gente está confortável onde nós estamos. O que eu acho que nós podemos perder é uma oportunidade de ver o mercado crescer."
Apesar de apontar impacto para todos os segmentos, Rodgerson afirma que, a longo prazo, a aviação regional pode sentir mais os efeitos do aumento do preço do QAV. "Eu acho que é possível, porque o combustível nessas regiões mais remotas é mais caro."
Roberto Alvo, CEO do Grupo Latam, disse em entrevista a jornalistas durante o IATA AGM (Annual General Meeting) que, mesmo se a Guerra no Irã acabar, o preço do QAV continuaria elevado pelo resto do ano.
"Isso porque será necessário recompor os estoques que foram consumidos para manter não apenas a aviação, mas também o transporte terrestre funcionando. Assim, nosso cenário é de que os preços permanecerão altos durante o restante do ano, mesmo que, felizmente, seja alcançado um acordo de paz no Oriente Médio", afirmou.
Alvo prevê um novo equilíbrio na indústria para o próximo ano. "Se os preços não caírem significativamente em 2027, veremos um reequilíbrio da capacidade, porque essa é a melhor forma de ajustar a equação econômica do setor."
Em entrevista a jornalistas neste sábado (6), o vice-presidente da Iata (Associação Internacional de Transportes Aéreos) para as Américas, Peter Cerdá, disse que a entidade prevê redução na demanda no mercado doméstico brasileiro por causa do aumento no preço da passagem aérea.
De acordo com a previsão de Cerdá, a movimentação de passageiros em voos domésticos no Brasil deve cair para um patamar anual abaixo de 90 milhões. Em 2025, a Iata registrou um fluxo recorde de mais de 100 milhões de viajantes no mercado doméstico brasileiro, um crescimento de 17% na comparação com o ano anterior.
Segundo Rodgerson, da Azul, o governo "está sendo mais proativo". Ele cita a linha de crédito prometida pela gestão Lula para as companhias aéreas.
Em maio, o Ministério de Portos e Aeroportos disse que o CMN (Conselho Monetário Nacional) havia aprovado a resolução com as condições para a concessão de financiamento de até R$ 1 bilhão para capital de giro de companhias aéreas brasileiras.
A resolução prevê operações com prazo de até seis meses para pagamento, taxa equivalente a 100% do CDI e limite de financiamento correspondente a até 1,6% do faturamento bruto anual de 2025 de cada empresa, limitado a R$ 330 milhões. Segundo a pasta, os recursos serão administrados pelo Banco do Brasil, com risco de crédito integralmente assumido pela União.
Rodgerson afirma que a companhia aérea está tendo conversas com o governo sobre a proposta de fim da escala 6x1, que pode afetar a jornada de trabalho no setor aéreo. O foco das discussões, segundo ele, são os aeronautas —categoria que inclui pilotos e comissários de bordo. "Acho que aeroviários [profissionais da aviação que trabalham em terra] é uma coisa que a gente já aceita que vai passar assim."
"Nós tivemos algumas reuniões com o governo, eles acham que não deve ter um grande impacto nos aeronautas, mas eu acho que nós temos que ver. Acho que só com o tempo nós vamos ver isso", afirma.
Em entrevista a jornalistas em maio, o CEO da Latam Brasil, Jerome Cadier, disse que, se a proposta pelo fim da escala 6x1 passasse da forma como estava, a companhia sofreria impactos na operação internacional.
Cadier afirmou neste sábado, durante o evento da Iata, que a companhia teve "conversas importantes e produtivas com o governo" nas últimas semanas.
"Essas conversas nos deram garantias de que essa mudança afetará principalmente as operações em solo, não necessariamente as tripulações aéreas. Nesse sentido, estamos otimistas de que essa lei será implementada da maneira correta", disse.
Sindicatos de aeroviários e aeronautas defendem a redução da jornada. Em entrevista à Folha em maio, Diego Barrionuevo, diretor de Relações Internacionais do Sindicato Nacional dos Aeronautas, disse que a escala 5x2 "não é um freio" para a operação das empresas. Segundo ele, as entidades que representam os trabalhadores da aviação encontram dificuldade em negociar com as companhias aéreas.
O jornalista viajou a convite da Iata
Fonte: Folha Online - 06/06/2026
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