Raízen confirma acordo com credores para reestruturar R$ 64,7 bilhões em dívidas
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Raízen confirma acordo com credores para reestruturar R$ 64,7 bilhões em dívidas

Publicado em 08/06/2026 , por Folha Online

A Raízen disse em fato relevante na madrugada deste sábado (6) que conseguiu adesão de credores para apresentar à Justiça um plano de reestruturação de sua dívida de R$ 64,7 bilhões, na maior recuperação extrajudicial já realizada no Brasil. O acordo precisa ser homologado por um juiz.

A Raízen informa ter obtido a adesão relevante de todos os grupos de credores (detentores de títulos internacionais, debêntures, certificados de recebíveis do agronegócio e bancos), que representam cerca de 75% das obrigações. Fornecedores, clientes e revendedores não terão créditos reestruturados.

A Shell aportará R$ 3,5 bilhões, e o plano prevê a possibilidade de investimento de R$ 500 milhões de Rubens Ometto, acionista controlador da Cosan, por meio de seu fundo familiar Aguassanta, ambos recebendo ações ordinárias.

O plano envolve a conversão de parte das dívidas dos credores em participação no negócio, por meio de ações. Cerca de 45% da dívida desses credores será transformada em participação acionária, no valor de R$ 0,25 por ação. Os outros 55% serão transformados em novos títulos de dívida, por meio de substituição, refinanciamento ou aditamento.

O acordo traz algumas opções de pagamento com desconto sobre o valor dos créditos reestruturados, bem como uma opção com um mecanismo de pagamento antecipado e com desconto para credores com créditos de menor valor, respeitado o limite total de até R$ 150 milhões para quitar esses débitos menores. Esse pagamento à vista está limitado a um valor máximo de R$ 9.750.

A Raízen também prevê seguir com seu plano de desintestimentos, a exemplo do que anunciou, na última quinta-feira (4) com a venda de negócios na Argentina.

A Raízen disse que pretende separar as operações da companhia em duas unidades ao fim de 2027. A Raízen Energia ficará com os negócios de etanol, açúcar e bioenergia, enquanto a Raízen Combustíveis comandará os negócios de distribuição de combustíveis e lubrificantes da marca Shell.

O vai e vem das negociações durou cerca de dois anos, muito antes de a Raízen solicitar a recuperação extrajudicial em março deste ano. A ideia nunca teria sido entrar com um pedido de reestruturação do tipo, mas as dificuldades na definição do valor dos aportes de Cosan e Shell para sanar o endividamento da companhia fizeram com que a recuperação extrajudicial fosse uma opção a ser considerada. A Shell, a princípio, não gostaria de efetuar um aporte substancialmente maior do que a Cosan na operação da Raízen.

Cosan e Shell sempre haviam mantido participações semelhantes na distribuidora de combustíveis desde sua criação, em 2011.

O endividamento elevado da Raízen se deu, sobretudo, devido à busca de novas tecnologias para o seu negócio, como a produção de etanol de segunda geração.

O E2G, jargão do mercado para o biocombustível, é produzido a partir de resíduos vegetais, como o bagaço e a palha de cana-de-açúcar, e é uma aposta para a diminuição das emissões de carbono. Mas esse tipo de produto é tecnologicamente mais complexo e caro que o etanol de primeira geração. Além disso, o E2G tem sido deixado para trás para o etanol de milho, que tem sustentado o avanço de concorrentes da Raízen, como Inpasa e FS.

O etanol de segunda geração é um combustível processado a partir de resíduos como palha, folhas e bagaço de cana, que permite a elevação da produtividade em até 50% sem aumentar o tamanho da área plantada, conforme a Raízen.

Com o endividamento crescente, a Raízen, principal produtora de etanol de cana-de-açúcar no Brasil, teve de se desfazer de ativos, como uma quase centenária usina na região de Ribeirão Preto, mais tradicional polo do setor no país.

Os negócios da Raízen passam por todas as etapas da cadeia produtiva de cana: produção de açúcar, etanol e bioenergia. Hoje, a companhia distribui e comercializa mais de 30 bilhões de litros de combustíveis anuais. Detém mais de 8.000 postos por meio da marca Shell. Além disso, opera 70 terminais de distribuição, atendendo aos principais aeroportos e mais de 5 mil empresas no país.

Em um recorte mundial, a Raízen está presente no Brasil, Estados Unidos, França, Alemanha e Indonésia.

Em 2019, a Raízen decidiu entrar no varejo. Por meio de uma parceria com o grupo mexicano Femsa, trouxe ao Brasil o mercado de proximidade Oxxo. A empreitada foi vista como uma distração por analistas, uma vez que não fazia parte da principal linha de atuação da empresa.

A rede demandou um investimento de capital expressivo para a abertura de centenas de unidades no país, mas não teve o retorno esperado.

Depois de procurar possíveis compradores para sua parte no negócio, os acionistas de referência Cosan e Shell decidiram abandonar a Oxxo. Com a recorrente queima de caixa, a joint venture entre as companhias chegou ao fim em 2025. A Femsa retomou a administração das lojas Oxxo no país, enquanto a Raízen ficou com a gestão das mais de 1,3 mil lojas Shell Select e Shell Café.

A operação brasileira da Oxxo nunca atingiu o chamado ponto de equilíbrio, quando a operação começa a se pagar, e foi um fator agravante para a atual crise da Raízen.

Fonte: Folha Online - 06/06/2026

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