Após recorde de endividamento, mais famílias buscam crédito emergencial
Publicado em 14/04/2026 , por Folha Online
As famílias brasileiras estão recorrendo ao uso de créditos emergenciais como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial para quitar as dívidas em meio ao pico histórico de endividamento atingido em janeiro.
Enquanto o crédito de longo prazo —que abrange modalidades como consignado, não consignado, financiamento de veículos e outros bens— cresceu cerca de 12,5%, as modalidades emergenciais saltaram 23% em fevereiro deste ano em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo o Termômetro do Crédito, realizado pela ABBC (Associação Brasileira de Bancos) com base em dados do Banco Central.
"As famílias já estão endividadas e a oferta de crédito barato também foi reduzida. Então, a conjugação de todos esses aspectos, produz esse movimento de um crescimento de linhas de maior risco", diz Everton Gonçalves, diretor de economia, regulação e produtos da ABBC.
O nível de endividamento total das famílias chegou aos 49,7%, e o comprometimento da renda mensal chegou a cerca de 29,3%, segundo dados divulgados do BC. Gonçalves afirma que, com o alto volume de endividamento, pode haver uma desaceleração mais rápida da economia do que o planejado.
"Por enquanto o mercado continua com níveis recordes de taxa de emprego, de crescimento, de salário, mas pode ocorrer uma mudança e isso preocupa", disse.
As linhas emergenciais são as de maior risco e de custo mais elevado do mercado. Por exemplo, a taxa de juros do cartão de crédito rotativo atingiu o patamar de 435,9% ao ano, como divulgado pelo BC.
Desde janeiro de 2024, está em vigor a norma que estabelece que a dívida de quem atrasa o pagamento da fatura do cartão de crédito não pode superar o dobro do montante original. Isso significa que a taxa de juros é limitada a um teto de 100% do valor da dívida contraída.
Hoje, a taxa de juros básica (Selic) da economia está em 14,75% ao ano.
Segundo o levantamento da ABBC, o cartão de crédito rotativo é a modalidade que mais gerou inadimplência para a pessoa física, com 59,7%, seguido pelo cheque especial, com 14,4%.
A linha de crédito do rotativo é recomendada por especialistas apenas em casos emergenciais. O rotativo é acionado quando o cliente não paga o valor integral da fatura do cartão de crédito na data de vencimento.
Como a Folha mostrou, governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) planeja autorizar um saque extraordinário do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar dívidas das famílias. Os estudos são para liberar 20% dos valores para quem ganha até cinco salários mínimos (R$ 8.105).
Já as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) sofrem um impacto mais profundo do que as grandes corporações nesse cenário de crédito restrito.
O movimento de desaceleração da economia, reflexo da política monetária adotada pelo Banco Central, provocou uma deterioração na carteira de crédito voltada para as MPMEs.
Essa deterioração gerou uma disparidade no mercado. Enquanto a taxa de inadimplência das pequenas e médias empresas atingiu 5,9%, a das grandes empresas permaneceu controlada em 0,6%.
"As pequenas e médias empresas sempre são mais impactadas porque elas têm uma sensibilidade ao movimento da economia maior do que as grandes empresas", explica o diretor da ABBC.
Como não conseguem captar recursos no mercado de capitais e enfrentam juros altos nos bancos, a principal ajuda para as pequenas e médias empresas tem vindo das modalidades de recursos direcionados (RD), como os programas vinculados ao BNDES, FGI e PEAC-FGI, como mostra o levantamento da ABBC.
Essas linhas governamentais oferecem taxas de juros mais acessíveis e focam no financiamento de médio e longo prazo, com fontes de recursos próprias.
Fonte: Folha Online - 13/04/2026
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