O fim das promoções ajudou dona da Dudalina e Le Lis a dobrar o lucro e faturar R$ 1,2 bi
Publicado em 13/03/2026 , por Exame
Após anos de reestruturação e uma conversão bilionária de dívidas, a Veste reorganiza suas marcas, reduz estoques e aposta em vender mais roupa a preço cheio para recuperar a rentabilidade
A última década não foi das mais fáceis para a empresa por trás das marcas de roupas Le Lis, Dudalina e John John.
Em 2020, com uma dívida próxima de 1,8 bilhão de reais, a varejista — então chamada Restoque — apresentou um plano de recuperação extrajudicial. A crise era resultado de anos de expansão agressiva, aquisições e uma estrutura de custos pesada para um mercado de moda que começava a mudar rapidamente.
A virada começou a ganhar forma em 2022. Naquele ano, a companhia realizou uma das maiores conversões de dívida em ações da história da bolsa brasileira, transformando 1,6 bilhão de reais em papéis e mudando a estrutura de controle da empresa para a gestora WNT (em outubro, o banco BTG Pactual, do mesmo grupo de controle da EXAME, comprou a participação da WNT e passou a ser o principal acionista da companhia).
Os primeiros sinais dessa nova fase começaram a aparecer nos resultados mais recentes. Em 2025, a empresa, hoje sob o nome de Veste, registrou faturamento líquido de 1,24 bilhão de reais, crescimento de 10,4% em relação ao ano anterior. O lucro líquido ajustado chegou a 33,2 milhões de reais, alta de 134%.
Para Alexandre Afrange, CEO da Veste, os números representam mais do que uma melhora pontual no desempenho da companhia.
“Esse resultado não é um número isolado. Ele vem de uma estratégia que começamos a executar há alguns anos”, afirma. “A gente entende que está subindo uma escada. Estamos nos primeiros degraus de um crescimento com rentabilidade e de forma sustentável.”
Por trás dessa melhora está uma mudança relevante na forma como a empresa opera suas marcas. Em vez de depender de liquidações frequentes — prática comum no varejo de moda — a Veste passou a focar em coleções mais assertivas e em um controle mais rigoroso de estoques. O objetivo é simples: vender mais peças pelo preço cheio.
Hoje, segundo Afrange, mais de 80% das coleções das marcas do grupo são vendidas sem desconto. “Quando você trabalha com um estoque adequado, você naturalmente tem um nível maior de venda a preço cheio”, diz. “Isso significa menos liquidação, mais assertividade na coleção e uma operação muito mais sustentável no longo prazo.”
Revisão de estoque e de coleções
A mudança mais relevante na operação da Veste começou pelo produto — e por uma pergunta simples: o que cada cliente realmente espera de cada marca do grupo.
Nos últimos anos, a companhia revisou profundamente o desenvolvimento das coleções, a precificação e até o volume de peças compradas. A ideia era voltar à essência de cada marca e reduzir a dependência de liquidações para girar estoque.
“Moda é comportamento”, afirma. “Quando o time de desenvolvimento e marketing está realmente focado naquele cliente, a consequência é uma coleção muito mais certeira.”
Outro pilar da estratégia foi o controle de estoque — uma das variáveis mais sensíveis no varejo de moda.
Durante anos, a empresa operou com níveis elevados de estoque, o que pressionava a necessidade de promoções e comprometia margens. Nos últimos ciclos de coleção, a companhia passou a comprar menos peças e planejar melhor o fluxo de produtos nas lojas.
O resultado foi uma redução significativa no volume parado. Ao final de 2025, a Veste encerrou o ano com 177 dias de estoque, uma queda de 45 dias em relação ao mesmo período do ano anterior.
A redução trouxe dois efeitos importantes: melhora operacional e liberação de caixa.
“A gente vinha trabalhando com estoques muito altos”, diz Afrange. “Com compras mais assertivas e canais performando melhor, conseguimos reduzir de forma importante esse nível.”
No varejo de moda, estoque parado costuma ser um dos maiores inimigos da rentabilidade. Quanto mais tempo uma peça permanece nas araras, maior a probabilidade de precisar de descontos para ser vendida. Ao reduzir o volume de mercadorias e alinhar melhor as coleções com o comportamento do consumidor, a Veste conseguiu inverter essa lógica.
A estratégia da Veste parte de um princípio relativamente simples: operar como uma “casa de marcas”, em que cada etiqueta do portfólio tem identidade própria, público específico e gestão dedicada.
Qual é a estrutura da empresa hoje
Hoje, o grupo reúne Le Lis, Dudalina, BO.BÔ, John John e Individual, marcas que atuam em segmentos diferentes dentro do mercado de moda premium.
Para Afrange, o desafio dos últimos anos foi equilibrar duas forças dentro da companhia: manter estruturas compartilhadas, que garantem eficiência, e ao mesmo tempo preservar a identidade de cada marca.
Essa reorganização interna foi uma das bases da estratégia de recuperação da companhia. Ao longo dos últimos anos, a empresa revisou coleções, posicionamento de preço e até a arquitetura das lojas para reforçar a identidade de cada marca.
No caso da Le Lis, hoje principal motor de crescimento do grupo, o reposicionamento trouxe resultados mais visíveis. A marca registrou faturamento de 786,2 milhões de reais em 2025, alta de 11,6%, com crescimento de vendas nas mesmas lojas.
Segundo Afrange, o objetivo foi traduzir a história da marca para o comportamento atual da consumidora.“Quando falamos em buscar a essência da marca, não significa voltar ao passado”, diz. “Significa pegar aquilo que sempre funcionou e traduzir para o comportamento da cliente de hoje.”
O avanço do digital também passou a ter papel importante nessa estratégia — não apenas como canal de vendas, mas como fonte de dados sobre o comportamento do consumidor. Em 2025, o B2C digital — vendas diretas ao consumidor final pela internet — cresceu 21,3%, alcançando 281,8 milhões de reais em faturamento.
Boa parte desse crescimento veio de uma mudança tecnológica iniciada em 2024, quando a empresa decidiu migrar sua operação de comércio eletrônico para uma nova plataforma. A troca permitiu integrar de forma mais eficiente diferentes canais de venda e lançar os aplicativos das marcas, algo que a estrutura anterior não permitia.
Reformas, franquias e o futuro
Se a reorganização das coleções e dos estoques ajudou a melhorar a rentabilidade, o próximo passo da Veste agora passa por outro movimento: modernizar a rede de lojas e expandir de forma seletiva.
Nos últimos anos, a companhia iniciou um amplo processo de atualização do conceito arquitetônico de suas lojas. A ideia foi adaptar os pontos de venda ao novo posicionamento das marcas e criar uma experiência mais alinhada ao público atual.
Hoje, quase metade da rede já passou por esse processo de modernização. E os resultados, segundo a companhia, aparecem rapidamente.
No varejo, um dos principais indicadores de desempenho é o same store sales, métrica que mede o crescimento das vendas em lojas abertas há mais de um ano. De acordo com Afrange, as unidades reformadas costumam apresentar desempenho superior ao restante da rede.
Em 2025, a companhia investiu cerca de 30 milhões de reais nestas lojas.
A prioridade, por enquanto, não é abrir muitas unidades novas, mas melhorar o desempenho da base existente. Ainda assim, algumas inaugurações pontuais continuam no radar.
Um dos movimentos mais relevantes acontece agora em São Paulo. A companhia prepara a abertura de operações no Shopping Morumbi, um dos centros comerciais mais tradicionais da cidade.
A expansão reunirá lojas das marcas Dudalina, Le Lis, BO.BÔ e John John, que ocuparão cerca de 580 metros quadrados de área total. Segundo a empresa, as quatro operações devem gerar faturamento anual próximo de 25 milhões de reais.
Para Afrange, a presença no shopping reflete a força das marcas dentro do segmento de moda premium..
Outra avenida de crescimento está nas franquias da Dudalina, modelo que a empresa começou a reorganizar nos últimos anos.
Depois de um período de ajustes na estrutura de franqueador, a marca encerrou 2025 com 22 operações franqueadas.
Além disso, a companhia também pretende ampliar as vendas no canal B2B, sigla para business-to-business, em que as peças são comercializadas para lojas multimarcas que revendem os produtos. Segundo Afrange, todas essas iniciativas seguem uma mesma lógica: crescer, mas sem repetir os erros do passado.
“Coerência, consistência e solidez são palavras importantes para a gente”, afirma. “Não buscamos atalhos para entregar um número bonito rapidamente. O objetivo é construir um crescimento sustentável.”
Fonte: Exame Online - 13/03/2026
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