Distribuidores levam Amazon e Walmart à África mesmo sem operação das empresas na maior parte do continente
Publicado em 15/07/2026 , por Folha Online
Consumidores na África estão comprando online de grandes marcas como Amazon e Walmart, mesmo que elas não tenham presença física em grande parte do continente. Entre os que se beneficiam com a prática, estão empresas que usam tecnologia e a crescente entrada de internet no local para fazer a distribuição de produtos.
Intermediários locais e estrangeiros superam questões estruturais dos países africanos, incluindo, em alguns casos, a falta de endereços formais e clientes sem acesso a bancos tradicionais.
Uma delas é a startup senegalesa Afrety, que fornece aos consumidores endereços de entrega em armazéns na França, Estados Unidos e China. Eles concluem as compras para cada cliente, reembalam e enviam à África Ocidental.
Na chegada, os impostos de importação são pagos, beneficiando os governos locais, e os consumidores recebem os pacotes na porta de casa.
Clientes sem cartões bancários podem pagar por contas digitais de dinheiro móvel que podem ser carregadas com dinheiro em quiosques. O dinheiro móvel é amplamente utilizado no Senegal, assim como em outras partes da África, em vez do sistema bancário convencional.
Quando os pacotes chegam ao Senegal, motos e vans estacionadas do lado de fora do depósito da Afrety fazem as entregas usando GPS em grandes cidades como Dakar, capital do país.
"Você tem que ser muito flexível. Essa é a palavra-chave", disse Souane Diop, o CEO de 34 anos, à Reuters, do lado de fora de seu depósito repleto de pacotes com etiquetas da Amazon e outras marcas internacionais.
Diop disse que a empresa começou em 2018 com o objetivo de conectar redes informais de viajantes aéreos entre a França e o Senegal.
A empresa entrega de quatro a cinco toneladas métricas por via aérea e dois a três contêineres por via marítima a cada semana. Para manter os custos baixos, a Afrety aluga um armazém na França e usa parceiros nos Estados Unidos e na China para lidar com o comércio nesses países.
A concorrente Aramex é uma global do mundo da logística, e opera duas plataformas com serviços sobrepostos.
Enquanto a Afrety cresceu a partir das profundas conexões entre o Senegal e a França, que tem uma grande população da diáspora senegalesa, a Aramex na África Subsaariana conta com a MyUS, que começou fornecendo produtos para expatriados americanos vivendo na África.
A Aramex adquiriu a MyUS em 2022 e, além disso, dirige uma plataforma que ela mesma criou, a Shop and Ship, que também entrega em diversos países do continente.
O presidente-executivo do Grupo Aramex, Amadou Diallo, disse à Reuters que a empresa tem como objetivo atender clientes africanos que desejam variedade e marcas que de outra forma não estariam disponíveis para eles.
Angola é um dos principais destinos, mas a empresa também opera em ambientes mais complexos, como a Somália, que tem sido devastada pela guerra há décadas.
Os produtos mais procurados são eletrônicos, vestuário, brinquedos, maquinário para agricultura e peças automotivas. A Aramex diz que planeja dobrar a receita com o envio desses e outros produtos para o território africano até 2030.
Mas as restrições ao crescimento permanecem. Tanto para a Aramex quanto para a Afrety, os clientes vivem principalmente em grandes cidades ou próximo delas, onde a riqueza relativa está concentrada. Isso porque o comércio eletrônico na África é muito impulsionado por polos econômicos, de acordo com a consultoria Tech Cabal Insights.
A penetração da internet na África atingiu cerca de 43% dos 1,5 bilhão de habitantes, mas apenas uma pequena fração tem renda suficiente para comprar online, afirma a consultoria.
Mesmo na Nigéria, potência econômica da África Ocidental, apenas um em cada três usuários de internet compra online. Em regiões mais pobres como a África Central, apenas um em cada 20.
Na África do Sul, que tem a economia mais rica da África Subsaariana, o uso de internet é maior e o país se destaca pelo nível de compras online. Os volumes de varejo no meio virtual cresceram cerca de 35% ao ano nos últimos cinco anos, chegando a quase 140 bilhões de rands em 2025 (R$ 43,5 bilhões), mostram dados da Mastercard.
O crescimento atraiu grandes marcas para estabelecer as primeiras operações na África. A Amazon lançou o primeiro mercado online na África do Sul em 2024, competindo com a gigante local de comércio eletrônico Takealot.
As primeiras lojas com a marca Walmart no continente foram abertas em Joanesburgo no ano passado.
Quando questionadas, nem a Amazon nem o Walmart comentaram se estavam considerando expandir para outras partes da África. Elas também não responderam a pedidos de dados sobre volumes de vendas para intermediários.
A empresa nigeriana de varejo Jumia, conhecida no local como a Amazon da África, opera em oito países do continente, vendendo bens de consumo que vão de moda a eletrônicos e eletrodomésticos.
A Jumia ainda não deu lucro, mas diz que espera atingir o ponto de equilíbrio este ano. O presidente-executivo, Francis Dufay, afirmou à Reuters que a empresa está enfrentando a concorrência de gigantes chinesas do varejo, como Temu e Shein, adaptando seus serviços a cada país, incluindo a abertura de centros de atendimento locais e pontos de retirada em áreas rurais.
Executivos tanto da Jumia quanto da Aramex disseram que a Nigéria estava entre os mercados de comércio eletrônico africanos com maior potencial.
O governo nigeriano não publica dados de comércio eletrônico com frequência, mas citou números das Nações Unidas estimando o total em cerca de US$ 75 bilhões (R$ 382 bilhões) no último ano.
A Aramex abriu um armazém na Nigéria em abril deste ano. Dufay, da Jumia, disse que os negócios lá cresceram cerca de 50% no último trimestre de 2025. "Ainda está totalmente subpenetrado. Estamos apenas no início da nossa transformação na Nigéria", disse ele.
Fonte: Folha Online - 14/07/2026
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