IPCA-15 desacelera a 0,41% e fica abaixo das projeções em junho, mas alimentos ainda pressionam
Publicado em 26/06/2026 , por Folha Online
A inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) desacelerou a 0,41% em junho, após marcar 0,62% em maio, apontam dados divulgados nesta quinta-feira (25) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O novo resultado ficou abaixo da mediana das projeções do mercado financeiro, que era de 0,44%, conforme a agência Bloomberg. O intervalo das estimativas ia de 0,35% a 0,52%.
Apesar do alívio, a taxa de 0,41% é a maior para meses de junho em quatro anos, desde 2022 (0,69%).
À época, o país era governado por Jair Bolsonaro (PL), derrotado por Lula (PT) nas eleições de outubro do mesmo ano.
O grupo alimentação e bebidas subiu menos neste mês, mas seguiu como principal fonte de pressão sobre o IPCA-15. A carestia da energia elétrica também impactou o índice.
No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 acelerou a 4,8% até junho, após marcar 4,64% até maio.
Com isso, afastou-se do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central) para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo).
Analistas do mercado financeiro esperam IPCA acima de 5% no acumulado de 2026.
Segundo o IPCA-15, a alta dos preços de alimentação e bebidas desacelerou de 1,38% em maio para 0,74% em junho.
O grupo, contudo, voltou a mostrar a maior variação dos nove pesquisados pelo IBGE. Também respondeu pelo maior impacto no índice de junho (0,16 ponto percentual).
Habitação veio na sequência, com alta de 0,72% e influência de 0,11 ponto percentual. Juntos, os dois grupos responderam por cerca de 66% do resultado deste mês.
O aumento da energia elétrica (2,04%) pressionou a habitação. A vigência da bandeira tarifária amarela em maio e junho gerou custo adicional para a conta de luz.
O IBGE também apontou efeitos de reajustes de tarifas em Belo Horizonte, Recife, Fortaleza e Salvador. A energia elétrica teve impacto de 0,08 ponto percentual no IPCA-15 deste mês. Foi o maior impacto individual.
Dentro de alimentação e bebidas, a alta da alimentação no domicílio saiu de 1,73% em maio para 0,87% em junho.
O instituto destacou os aumentos da batata-inglesa (29,42%), do tomate (17,27%), do feijão-carioca (14,29%) e da cebola (9,54%). Do lado das quedas, chamou a atenção para o café moído (-3,69%) e as frutas (-0,96%).
Parte dos alimentos costuma subir nos meses iniciais do ano com a redução da oferta devido a condições climáticas mais complicadas para a produção.
Em 2026, a alta foi potencializada pelo aumento de custos após o começo da guerra no Irã, segundo analistas.
Tomate, cenoura e batata-inglesa mais do que dobraram de preço no primeiro semestre. Os três produtos acumularam altas de 103,84%, 103,1% e 100,2%, respectivamente, no IPCA-15.
No recorte mensal, os combustíveis mostraram redução de 1,22% em junho. Assim, impediram um avanço maior do índice geral.
O diesel teve queda de 1,47% neste mês, após recuar 2,04% em maio. O combustível, porém, ainda não compensou as altas de 16% em abril e de 3,77% em março, logo depois do início da guerra. O conflito pressionou as cotações do petróleo.
O etanol (-5,3%) e a gasolina (-0,73%) também recuaram em junho. Os dois responderam pelos maiores impactos do lado das quedas no IPCA-15 (-0,04 p.p. cada).
Para o economista Leonardo Costa, da instituição financeira Asa, a baixa recente do preço do petróleo, em meio ao avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, representa um "vetor desinflacionário relevante".
Em sentido oposto, o El Niño permanece no radar como ameaça para o segundo semestre, conforme Costa.
O fenômeno climático preocupa porque as previsões indicam risco de um evento com forte intensidade.
Caso se confirme, a situação pode dificultar a produção agropecuária, com eventuais repasses para os preços de alimentos.
A inflação em ano eleitoral acendeu alerta no governo federal, que adotou um pacote de medidas para frear a carestia dos combustíveis após a guerra. Lula deve concorrer à reeleição em outubro.
O IPCA-15 é divulgado antes e, por isso, sinaliza uma tendência para o IPCA. Uma das diferenças entre os dois é o período de coleta dos preços.
A apuração do IPCA-15 abrange a segunda metade do mês anterior e a primeira do mês de referência. No caso do índice de junho, a coleta foi realizada de 16 de maio a 16 de junho.
Já o levantamento do IPCA ocorre ao longo do mês de referência. Por isso, o resultado de junho ainda não está fechado. Será divulgado pelo IBGE em 10 de julho.
A mediana das projeções do mercado financeiro para o IPCA de 2026 está em alta há 15 semanas consecutivas, conforme o boletim Focus, divulgado pelo BC.
A estimativa mais recente indica variação de 5,33% nos 12 meses até dezembro, acima do teto de 4,5% da meta.
Apesar dos avanços nas negociações entre Estados Unidos e Irã, as incertezas sobre um acordo de paz definitivo ainda podem impactar os preços de commodities energéticas, afirma a economista Claudia Moreno, do C6 Bank.
"Medidas adotadas pelo governo, como subsídios e redução de impostos, ajudam a conter parte dos efeitos desse cenário sobre os preços no Brasil, mas o mercado de trabalho aquecido e a desvalorização do real tendem a manter a inflação pressionada no segundo semestre", acrescenta.
O cenário inflacionário trouxe incertezas sobre a magnitude do ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic.
Na semana passada, o BC reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual pela terceira vez seguida, de 14,5% para 14,25% ao ano. Na ocasião, a instituição manteve a indefinição sobre os próximos passos.
O mercado projeta Selic de 14% ao final do ano, conforme o boletim Focus.
Fonte: Folha Online - 25/06/2026
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