Decisão do Copom evitou 'variações abruptas' nos juros contra piora da inflação, mostra ata
Publicado em 24/06/2026 , por Folha Online
A piora nas projeções de inflação exigiria "variações abruptas de direção e de grande magnitude" na taxa básica de juros (Selic) para colocar a inflação na meta, mas o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu adotar uma trajetória mais suave, mostra ata divulgada pelo Banco Central nesta terça-feira (23).
"O comitê debateu que esse conjunto de resultados deve ser ponderado à luz das melhores práticas de política monetária, recomendando não reagir integralmente a variações de preços decorrentes de choques de oferta, que no momento atual incluem incertezas relevantes", diz a ata, citando as consequências dos conflitos no Oriente Médio e os impactos do fenômeno climático El Niño.
Na última quarta-feira (17), o Copom fez o terceiro corte de 0,25 ponto percentual na Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano, embora a própria autoridade monetária tenha reconhecido a deterioração nas expectativas para a inflação.
Para justificar a decisão, o BC optou por olhar de forma antecipada para as projeções do primeiro trimestre de 2028, o que permitiu uma condução mais suave dos juros. A escolha, no entanto, gerou ruído no mercado, que a interpretou como sinal de maior tolerância com inflação acima da meta.
Embora as estimativas para 2028 tenham ajudado a balizar a decisão de juros, elas não foram divulgadas pelo colegiado, nem no comunicado de quarta, nem na ata desta terça. O Copom apenas menciona que as trajetórias alternativas analisadas pelo comitê, "com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração", levam a inflação à meta no primeiro trimestre de 2028.
A meta de inflação perseguida pelo Banco Central é de 3% ao ano. No cenário de referência do Copom, a projeção piorou de 4,6% para 5,2% neste ano e de 3,5% para 3,7% em 2027 —ambas acima do alvo.
Segundo o comitê, as últimas divulgações de inflação mostram "sinais claros" dos efeitos do conflito no Oriente Médio e da pressão pelo lado da demanda. Além disso, houve deterioração nas expectativas de preços para 2026, 2027 e 2028, o que exigiria mudança na trajetória dos juros.
O BC ainda incluiu os estímulos à demanda agregada (sobretudo ao consumo) como um fator de risco para a inflação, o que foi lido como alusão às medidas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para estimular o crédito —muitas delas com juros subsidiados, o que atrapalha a eficácia da política monetária na desaceleração da atividade e dos preços.
O colegiado também passou a falar em "assimetria altista" em seu balanço de riscos, o que indica maior probabilidade de a inflação observada ficar acima do projetado.
No entanto, o comitê diz ter julgado mais adequado adotar trajetórias "menos discrepantes" com o que o próprio mercado já indicava esperar, conforme demonstrado na pesquisa do Boletim Focus, no questionário pré-Copom respondido pelos analistas e na precificação dos ativos de mercado. Segundo o BC, essa decisão é compatível com uma convergência da inflação à meta de 3% no primeiro trimestre de 2028.
O colegiado também deixou em aberto os próximos passos, que dependerão da "clareza sobre a profundidade e a extensão" do conflito no Oriente Médio e seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços.
"No contexto atual de incerteza em níveis historicamente elevados, com riscos assimétricos na direção altista para os preços, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a assegurar a convergência da inflação à meta", diz a ata.
A menção a "momentos de pausa" no trecho que fala das trajetórias levadas em consideração pelo comitê levou analistas a cogitarem a possibilidade de interrupção no ciclo de corte dos juros já na próxima reunião, em agosto.
O economista-chefe da XP, Caio Megale, prevê uma nova redução de 0,25 ponto percentual, mas afirma que ata sugere que isso pode não acontecer. "A combinação de uma descrição dura do cenário com a preferência revelada por uma trajetória que envolve pausas sugere, em nossa visão, que o plano de voo atual do Copom inclui uma pausa na próxima reunião, em agosto", diz.
O primeiro trimestre de 2028 só passaria a ser o alvo oficial da política monetária na próxima reunião do Copom, em agosto.
Na reunião de junho, o chamado "horizonte relevante", que deve ser levado em consideração nas decisões e reflete o tempo necessário para que os juros façam efeito, era o último trimestre de 2027.
Ao justificar a escolha, o Copom disse que a taxa de juros necessária para levar a inflação à meta no fim de 2027 poderia derrubar o índice para menos de 3% no primeiro trimestre de 2028, sem detalhar as estimativas.
"O comitê debateu trajetórias alternativas [...] com convergência da inflação à meta no atual horizonte relevante [fim de 2027], exigindo variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic, seguida de diversos trimestres com inflação abaixo da meta", diz a ata.
"O comitê julgou como mais adequadas, nesse momento, trajetórias de Selic menos discrepantes [...], por evitarem induzir volatilidade excessiva nos preços dos ativos financeiros e agregados macroeconômicos, com efeitos potencialmente contraproducentes à própria convergência da inflação à meta."
A maior parte do mercado já esperava um novo corte na Selic em junho, mas a justificativa acabou gerando ruído diante da percepção de maior tolerância do BC com inflação acima da meta.
A ata ainda cita que a atividade econômica "manteve trajetória de moderação no crescimento", compatível com a política de juros em curso. Em relação às contas públicas, o colegiado do BC manteve o tom usado em decisões anteriores ao dizer que "mantém a firme convicção" de que as políticas devem ser previsíveis, críveis e anticíclicas (ou seja, atuar na direção oposta à do ciclo natural da economia).
O Copom voltará a se reunir nos dias 4 e 5 de agosto, no quinto dos oito encontros previstos para o ano.
Fonte: Folha Online - 23/06/2026
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