"Pacote de bondades": mercado prevê cenário de juros altos a longo prazo
Publicado em 23/06/2026 , por CNN Brasil
Estudo aponta que 60% dos gastos anunciados pelo governo Lula estão fora do arcabouço fiscal, elevando juros e dívida pública
O governo Lula anunciou cerca de R$ 190 bilhões em benefícios diretos à população, em um conjunto de medidas que ficou conhecido como "pacote de bondades".
Desse total, aproximadamente R$ 118 bilhões estão fora do limite de gastos estabelecido pelo arcabouço fiscal, segundo levantamento da CNN baseado em estudo do economista Marcos Mendes, elaborado com exclusividade para a XP Investimentos.
A analista de Economia da CNN Lucinda Pinto destacou dois aspectos centrais do estudo. O primeiro diz respeito ao volume de gastos que não são contabilizados dentro do arcabouço fiscal.
"Cerca de 60% dos gastos que o governo está anunciando esse ano não vão ser contabilizados ali no arcabouço fiscal", afirmou Lucinda. Segundo ela, essa estratégia permite ao governo cumprir formalmente a meta fiscal sem reduzir os gastos efetivos.
Confiança no arcabouço fiscal é abalada
A analista alertou que esse tipo de manobra contábil compromete a credibilidade do arcabouço fiscal.
"Quando existe esse tipo de estratégia de fazer gastos fora da contabilidade oficial, fica bastante delicado você confiar naquele arcabouço", disse Lucinda.
Entre os itens não contabilizados como gasto estão o aumento do programa Minha Casa Minha Vida e o programa Desenrola. Ainda assim, esses recursos saem dos cofres públicos e impactam a dívida pública.
Lucinda apresentou dados da curva futura de juros negociada na B3, que reflete as expectativas dos investidores para a taxa Selic nos próximos anos.
As projeções indicam que a Selic encerraria 2026 em 14,22% e subiria para 14,70% no ano seguinte.
Embora haja queda nas projeções subsequentes, a taxa permaneceria acima de 14% ao longo dos próximos dez anos. "Isso tem tudo a ver com esse cenário de fiscal descontrolado, de dívida pública em alta", afirmou a analista.
Questionada sobre precedentes históricos, Lucinda lembrou que uma curva de juros tão elevada e prolongada foi observada anteriormente durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff.
Impacto nos investimentos e na economia real
O especialista em contas públicas Murilo Viana avaliou que o cenário fiscal compromete a sustentabilidade das contas públicas a longo prazo.
Para ele, o Brasil apresenta uma composição de despesa pública desfavorável, com pouco espaço destinado ao investimento público e um déficit nominal elevado em razão das despesas com juros.
"A situação fiscal fica sem previsibilidade, sustentabilidade, quando a gente observa uma taxa de juros real de 8%, 9%, o que acaba levando a uma dinâmica de crescimento da dívida muito acelerada para os próximos anos", afirmou Murilo.
Lucinda reforçou que as taxas de juros futuras não são apenas instrumentos financeiros abstratos. Segundo ela, é a partir dessas taxas que as empresas constroem seus projetos de investimento de longo prazo, como a construção de fábricas.
Fonte: CNN Brasil - 23/06/2026
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