Dólar reverte perdas e sobe para R$ 5,11 com apostas de alta de juros nos EUA; Bolsa cai
Publicado em 18/06/2026 , por Folha Online
O dólar reverteu as perdas desta quarta-feira (17) e fechou em alta de 0,39%, cotado a R$ 5,109, na esteira da decisão de juros do Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos).
Embora a manutenção dos Fed Funds em 3,5% e 3,75% já fosse amplamente esperada, o mercado foi pego de surpresa com a previsão de 9 entre 19 membros do comitê de que haverá ao menos uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa neste ano —destes, 6 esperam ao menos duas elevações. Outros 9 não esperam alteração, e Kevin Warsh, novo presidente do Fed, se absteve de fazer projeções.
A entrevista coletiva de Kevin Warsh, a primeira dele à frente do cargo, também foi lida pelo mercado como "hawkish", ou seja, dura no combate à inflação. O novo chairman se recusou a dar qualquer sinalização futura sobre os próximos passos do banco central, mas reforçou o compromisso do comitê em levar a inflação de volta à meta de 2%.
O mercado, assim, passou a precificar totalmente uma nova alta de juros em outubro, instalando forte aversão ao risco globalmente. O dólar, que encostou na mínima de R$ 5,052 durante o dia, virou para alta e chegou à máxima de R$ 5,121. A Bolsa, antes em valorização acentuada, fechou em queda de 0,7%, a 168.453 pontos, tendo chegado ao pico de 171.878 pontos no pregão.
"A surpresa não foi a manutenção dos juros, mas o tom da coletiva. O mercado buscava sinais de uma postura mais favorável a cortes, mas Warsh estreou reforçando o compromisso com a inflação e com a credibilidade do Fed. No fim, mais do que a decisão em si, a mensagem mexeu com as expectativas para os próximos meses", diz Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos.
A reação se espalhou por outras praças além da brasileira. Em Wall Street, os três principais índices acionários —Dow Jones, Nasdaq e S&P500— fecharam em queda de cerca de 1% cada. O dólar subiu globalmente, com o DXY, que compara a moeda ante uma cesta de seis divisas fortes, avançando 1%, a 100,56 pontos, no maior valor desde março.
Os juros futuros dos EUA subiram mais de 4% nos vencimentos de curto prazo, de 2 anos, e 1% na ponta longa da curva, de 10 anos. No Brasil, as taxas de DI (Depósito Interbancário) a partir de 2028 dispararam 2%, seguindo os títulos americanos.
"De forma geral, Warsh tentou não dar sinais sobre como devem ser as próximas decisões de juros, mas reforçou o seu compromisso de voltar a alcançar a meta de 2% após o insucesso dos últimos anos", diz Christopher Galvão, sócio e analista da Nord Investimentos.
"O mercado leu a entrevista coletiva e, principalmente, as projeções dos membros do Fed como 'hawkish', ou seja, mais duro no controle da inflação. Assim, vimos os juros curtos de 2 anos subirem 10 pontos-base, com o mercado projetando mais juros no curto prazo."
O tom "hawkish" já apareceu no comunicado. Em um sinal inicial da influência do novo chair do Fed, o comitê removeu completamente qualquer orientação sobre movimentos futuros dos juros. O novo formato simplesmente informou a decisão sobre a taxa e reafirmou a intenção do banco central de manter "reservas abundantes no sistema bancário".
A descrição da economia abordou temas enfatizados por Warsh, mencionando que "o crescimento da produtividade e o investimento de capital estão fortes". Embora reconhecesse que a inflação estava "elevada em relação à meta de 2% do comitê", isso foi atribuído em parte a "choques de oferta que impulsionaram aumentos de preços em certos setores, incluindo energia".
As novas projeções mostram a inflação desacelerando acentuadamente no próximo ano. "O Comitê entregará estabilidade de preços", disse o documento.
"Nesse momento, o mercado passa a precificar 80% de chance de alta de juros até o fim do ano, com a discussão deixando de ser 'se' o Fed subirá juros, mas 'quanto'. As probabilidades estão em 41% para 1 alta de juros e mais de 30% para 2 ou mais altas", afirma Galvão.
Juros mais altos nos Estados Unidos costumam ser uma má notícia para investimentos ao redor do mundo.
Como a economia norte-americana é a maior do mundo, a renda fixa de lá —capitaneada pelas "treasuries", títulos do Tesouro que são balizados pelos Fed Funds— é tida como um investimento praticamente livre de risco. Quando os juros sobem, os rendimentos das treasuries acompanham, levando alguns investidores a retirar recursos de outros produtos, especialmente de mercados emergentes, para alocar nelas, um ativo seguro e de alto retorno.
Para o Brasil, porém, outro fator entra na conta: o diferencial de juros. Com a Selic em dois dígitos, a disparidade em relação aos Fed Funds torna atrativa a estratégia de "carry trade", isto é, de tomar recursos em economias de taxas baixas, como a americana ou a japonesa, e aplicá-los aqui, para rentabilizar sobre essa diferença percentual.
Essa estratégia tem sido apontada por operadores como um dos principais motivos para a queda do dólar nos últimos meses —e, nesta quarta, para a alta leve em relação ao real em comparação com as demais moedas.
Os investidores ainda aguardam a definição da taxa Selic por parte do Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central), que será divulgada após o fechamento do mercado.
A expectativa é que o comitê dê continuidade ao ciclo de afrouxamento na taxa Selic e a corte em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano. Mas o mercado vê chances dessa queda ser a última antes de uma pausa no processo de calibração da taxa básica.
A volatilidade provocada pela guerra no Oriente Médio, a piora nas expectativas de inflação e os estímulos fiscais dados pelo governo de Lula (PT) tornam, na avaliação dos economistas ouvidos pela Folha, o cenário mais desafiador e podem levar o BC a endurecer o tom e aumentar a cautela nas próximas reuniões.
Desde março, quando iniciou a flexibilização dos juros, o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu a Selic em 0,5 ponto percentual, com dois cortes seguidos de 0,25 ponto percentual. Em perspectiva histórica, outros curtos ciclos de queda ocorreram em 2002 e em 2004.
"O ponto mais importante será o comunicado. A expectativa é de que o BC corte, mas já prepare o terreno para uma pausa, diante da inflação resistente, atividade ainda forte e risco fiscal", afirmou o responsável pela área de renda variável da Criteria, Thiago Pedroso.
Fonte: Folha Online - 17/06/2026
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