Ex-diretor do BC disse a Vorcaro que mercado jogava 'emenda Master' na conta de Campos Neto
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Ex-diretor do BC disse a Vorcaro que mercado jogava 'emenda Master' na conta de Campos Neto

Publicado em 17/06/2026 , por Folha Online

O ex-diretor do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, alertou ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro que o mercado financeiro jogava a chamada "emenda Master", que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura de investimentos garantidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), na conta do dono do conglomerado e do então presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto.

A proposta de aumento da cobertura do FGC foi apresentada em 2024 pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), mas acabou rejeitada. Como mostrou a Folha, de acordo com a investigação, o parlamentar reproduziu na íntegra texto produzido pelo Banco Master.

A instituição de Daniel Vorcaro tinha como estratégia vender CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com alta remuneração, usando a cobertura do FGC como atrativo. O objetivo era aumentar a captação de dinheiro por meio desse instrumento, o que poderia dar uma sobrevida à instituição.

Segundo análise do material apreendido pela Polícia Federal, Vorcaro demonstrava expectativa quanto à aprovação da medida, indicando interesse nos impactos positivos sobre o banco. Em trecho de conversa via WhatsApp no dia 13 de agosto de 2024, o ex-diretor jurídico do banco Luiz Rennó disse: "Vc [sic] sextuplica seu negócio. Bora".

O material também traz trechos de uma conversa entre Paulo Sérgio e Vorcaro via WhatsApp em 14 de agosto de 2024, após a apresentação da emenda no Senado. "Mercado colocando a conta dessa MP em você [Vorcaro]", disse o ex-diretor do BC, que também questionou sobre repercussão ainda maior após o episódio.

O dono do Master, por sua vez, afirmou tratar-se de uma emenda e que tinha "muita gente achando positivo", à exceção dos grandes bancos. Ele achava difícil que o caso reverberasse ainda mais.

Adiante, Vorcaro afirmou: "Não fui eu quem pedi". Em resposta, Paulo Sérgio continuou: "Estão jogando também no Roberto. É amigo do senador e esteve com ele numa festa recente", em provável referência a Roberto Campos Neto, então presidente do BC.

Em nota, a assessoria de Campos Neto disse que o Banco Central atuou institucionalmente contra a emenda por determinação do próprio presidente.

"Roberto Campos Neto somente tomou conhecimento da existência da tal emenda por meio do diretor Renato Gomes e, imediatamente, determinou que houvesse uma força-tarefa de diversas áreas do banco para que fundamentassem uma manifestação técnica contra a proposta, na mesma linha do que havia sido defendido pela Febraban [Federação Brasileira de Bancos]", disse.

Ainda de acordo com a assessoria, a atuação do BC para a elaboração de fundamentos técnicos contra a proposta foi alinhada à do FGC, que chegou a trabalhar de forma emergencial.

"Importante destacar, também, que o próprio Roberto Campos Neto, quando tratou do tema com senadores, a exemplo do relator Plínio Valério, foi contra tal emenda. Portanto, não procede qualquer ilação de que Roberto Campos Neto ou o Banco Central tenham apoiado a chamada 'emenda Master'", complementou.

Procurada, a defesa de Paulo Sérgio disse aguardar acesso às conversas obtidas pela PF para o verificar o contexto do diálogo e se manifestar sobre o tema.

Entre essas duas mensagens, o dono do Master disse que "tinha pedido lá atrás algo do tipo [ampliação da cobertura do FGC]", "mas a turma vendo o movimento dos grandes bancos decidiu fazer". "Eu não teria entrado nessa briga agora", "só no ano que vem", acrescentou.

Segundo as investigações, um núcleo informal conhecido como A Turma funcionava para monitorar e pressionar pessoas consideradas adversárias do banqueiro ou ligadas às apurações sobre o banco.

As investigações indicam que Paulo Sérgio prestava consultoria estratégica a Vorcaro, orientando sobre a atuação do BC em processos administrativos, sugerindo argumentos para reuniões e revisando relatórios que seriam enviados à autarquia.

Ele também teria funcionado como interlocutor interno dos interesses do banco, fornecendo informações sobre procedimentos em curso, antecipando movimentações detectadas pelos sistemas de monitoramento e indicando caminhos para reduzir riscos regulatórios.

As investigações apontam ainda indícios de recebimento de vantagens indevidas por parte do servidor do BC. Mensagens sugerem que o ex-banqueiro teria custeado serviços para uma viagem do servidor a parques temáticos em Orlando, nos Estados Unidos, reforçando a suspeita de contrapartidas ilícitas.

Além disso, como mostrou a Folha, apuração conduzida pela própria autoridade monetária detectou indícios de que Paulo Sérgio simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, para ocultar recebimento de propina do Banco Master ou de pessoas ligadas ao grupo.

Fonte: Folha Online - 16/06/2026

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