País ainda vai tomar taxa venenosa de juros por um tempo assustador
Publicado em 10/06/2026 , por Folha Online
As taxas de juros não vão cair tão cedo. No máximo, o Banco Central talvez dê uma gorjeta pequena na reunião da semana que vem, quando decide a Selic: corte mínimo e basta. No mais, o caldo entornou, em uma situação já muito grave. O país não parece ligar muito.
O Desenrola 2 vai enxugar mais gelo. Empresas continuam no caminho de renegociação de dívidas e recuperação judicial ou gastam o que ganham em juros ou, aquelas em situação melhor, deixam de investir por causa do custo de capital. A taxa de investimento, sempre longe do necessário nos últimos 40 anos, vai minguando para níveis dos anos da economia deprimida.
No mercado, o dinheiro está aplicado em uma Selic a 14,5% (nível atual) e de 15% na virada do ano. Para quase todos os prazos mais longos, estão em níveis próximos daqueles do pânico da virada de 2024 para 2025.
Pode ser um mercado "disfuncional", "desorientado" pelos choques recentes, exagerado, quem sabe. Isto é, ora sem rumo por causa de choque de petróleo mais duradouro, por causa de economia mais acelerada do que se imaginava, por estímulos de crédito do governo ou risco de alta de juros nos Estados Unidos. Mesmo que se desconte o exagero, o rolo não passa tão cedo, até porque vai haver eleição. O problema é que a conta de juros já andava em nível tétrico.
Neste século, o governo federal quase nunca pagou tanto juro quanto agora. A despesa foi a 7,2% do PIB, o equivalente a R$ 1 trilhão nos últimos 12 meses, em termos reais.
Apenas entre meados de 2015 e início de 2026 a conta de juros foi um pouco mais alta, como porcentagem do PIB, como proporção do tamanho da economia. O país estava então em colapso, na Grande Recessão, com PIB diminuído e alta de juros por causa de vários motivos, entre eles a inflação que aumentava também por causa do fim dos tabelamentos de preços de Dilma 1, entre outros tantos desastres daqueles anos.
A taxa real de juros que o governo federal paga para financiar seus déficits e para rolar os juros que vencem foi nos últimos 12 meses a mais alta desde 2007, desde quando há dado oficial disponível. A dívida pública aumenta de modo acelerado e sem limite, mesmo nestes tempos de crescimento razoável da economia, no primeiro triênio de Lula 3. Razoável: pouco acima da média medíocre das últimas três décadas. O que acontece se sobrevier desaceleração forte do PIB?
Houve azares, por assim dizer, como o choque de preços do petróleo, que ainda vai durar, mesmo que arrefeça. Houve reviravolta no fluxo de capital que entra e sai do país, uma droga de curtíssimo prazo.
Os donos do dinheiro grosso do mundo, que pingaram trocados bilionários por aqui no primeiro terço do ano, mudaram um tanto de ideia. Os recursos não vinham por motivos "fundamentais" (estabilidade macro, perspectiva de crescimento etc.), mas por realocação momentânea de capital. Aparentemente, agora acham interessante levar parte do dinheiro para ações e IPOs das "big techs magníficas", apesar dos tombos estranhos recentes no mercado americano. A reviravolta, nem tão dramática, contribui para a desvalorização recente do real e um tico mais de inflação.
É verdade. Mas resolvemos sair na rua com roupa feita de papel, achando que não viria chuva ou tempestade. Está chovendo grosso nestas últimas semanas. O fim do anabolizante do capital de curto prazo mostrou de novo nossa esqualidez fiscal: déficits permanentes e bola de neve da dívida.
Fonte: Folha Online - 09/06/2026
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