Taxas do Tesouro disparam, e economistas veem juros 'assustadores' na dívida pública
< Voltar para notícias
5 pessoas já leram essa notícia  

Taxas do Tesouro disparam, e economistas veem juros 'assustadores' na dívida pública

Publicado em 10/06/2026 , por Folha Online

17810337506a286b168cf6c_1781033750_3x2_rt.jpg

Os juros que o Tesouro Nacional paga para financiar a crescente dívida pública brasileira seguem disparando e atingindo patamares recordes.

Isso torna mais caro rolar a dívida pública federal de R$ 8,8 trilhões e explicita o temor de investidores quanto à capacidade de pagamento do país num momento em que o presidente Lula (PT) busca a reeleição com uma série de novos gastos.

Em menos de um mês, todas as taxas de juros que o Tesouro paga para a venda de títulos escalaram. Os bastante populares e corrigidos pela inflação com vencimento em 2032 (IPCA + 2032), por exemplo, saltaram de 7,63% ao ano para 8,3%. Para aqueles com vencimento um pouco mais longo (IPCA + 2040), as taxas subiram de 7,15% para 7,65%.

Num exemplo com os títulos IPCA + 2032: quem tivesse aplicado R$ 100 mil no dia 11 de maio receberia no vencimento R$ 162,2 mil, mais a inflação. Quem o fez nesta terça (9), veria os mesmos R$ 100 mil se transformarem em R$ 169 mil, mais a inflação —uma diferença de R$ 6.800 a mais.

"Há uma combinação de elementos pressionando as taxas: o desajuste fiscal que Lula aprofunda com medidas macro e micro para tentar se reeleger; o choque nos preços do petróleo e a diminuição dos estoques; a expectativa de aumento dos alimentos com a chegada do El Niño; e a tramitação do fim da escala 6x1, que trará pressões para as empresas", afirma Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados.

Tudo isso pressiona a inflação e pode levar o Banco Central a retardar o ciclo de queda nos juros —a Selic está em 14,5% ao ano. Vale afirma que o desequilíbrio fiscal pesa particularmente.

"Enquanto o governo projeta um superávit primário [receitas menos despesas, sem contar juros] de R$ 8 bilhões para 2027, o mercado conta com um déficit de R$ 130 bilhões. Se não houver um ajuste, o quadro vai se agravando", diz. A discrepância seria resultado de receitas superestimadas e projeção de aumento de despesas irrealista, além de uma série de gastos que não entraria formalmente na meta fiscal.

José Júlio Senna, pesquisador do FGV-Ibre e ex-diretor do Banco Central, considera "assustadoras" as taxas que o Tesouro está pagando para rolar a dívida federal.

"Muita gente fala que um ajuste nas contas públicas será 'inevitável’ em 2027. Mas, para ser inevitável, é preciso que Executivo e Legislativo estejam cientes da gravidade. O que vemos, no entanto, é que esses Poderes estão juntos na promoção de gastos insustentáveis. Parece que ninguém se assusta com isso", afirma.

Segundo Senna, o quadro atual —em que o governo Lula se utiliza de fundos e bancos estatais como o BNDES e a Caixa Econômica Federal para subsidiar políticas visando à reeleição— torna o cenário mais imprevisível.

"Há empréstimos subsidiados para motoqueiros, motoristas de Uber, caminhoneiros, o Minha Casa Minha Vida, para reforma de residências, e não há como fazer uma estimativa clara de quanto desse dinheiro vai voltar", diz Senna.

"Isso também não impacta nas regras fiscais [do chamado arcabouço fiscal], mas é dinheiro que aumenta imediatamente a dívida pública. É um quadro muito nebuloso em que o mercado tem muita dificuldade de entender esse vale-tudo, daí a forte alta dos juros."

Em artigo publicado nesta terça (9), Alexandre Manoel, sócio da Global Intelligence and Analytics e com várias passagens no Ministério da Fazenda/Economia, afirmou que "mais importante do que o nível absoluto dessas taxas [de juro atuais] é o fato de que o mercado continua demonstrando dificuldade em identificar gatilhos para uma convergência rápida dos juros reais para os níveis observados antes de 2023".

Manoel destaca que os juros reais estruturais passaram de 5% ao ano entre 2016-2022 para 7% no período 2023-2025. Contribuíram para isso mais gastos primários (alta de 1,8% para 4,7% entre os dois períodos) e aumento de medidas parafiscais (como as que Senna destaca), que subiram de 0,3% como proporção do PIB para 1%.

"Enquanto os agentes econômicos não perceberem uma mudança efetiva na condução da política fiscal e na reconstrução dos mecanismos institucionais de contenção de gasto, sinais pontuais ou anúncios de curto prazo tendem a produzir impacto limitado sobre os juros reais estruturais", afirma.

Para André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV, a alta recente nas taxas dos títulos públicos de longo prazo é motivada por uma combinação de fatores, mas o peso principal está no prêmio de risco fiscal e político-eleitoral, e não apenas na inflação.

"Embora a inflação continue desconfortável —com mercado de trabalho forte, serviços resistentes e expectativas acima da meta—, o que realmente tem disparado os juros reais para patamares acima de 8% ao ano é a desconfiança em relação à sustentabilidade das contas públicas e o temor de mais gastos em ano eleitoral", diz.

Nesse cenário, a inflação funcionaria como o sintoma visível, mas a política fiscal é a verdadeira doença, gerando uma desconfiança que contamina toda a curva de juros futuros, encarece o crédito e desvaloriza os ativos locais.

Adicionalmente, a escalada nos últimos 30 dias coincidiu com a eclosão do caso "Dark Horse", em que o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) aparece em gravações pedindo dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso pelas falcatruas no banco Master.

De lá para cá, pesquisas de intenção de voto mostraram Flávio perdendo terreno em uma eventual disputa no segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Muitos no mercado consideram que a continuidade de uma gestão petista não traria um ajuste significativo nas contas públicas, tornando a necessidade de financiamento do Tesouro mais crítica —daí o aumento das taxas que os investidores cobram.

Já membros da equipe de Flávio vêm delineando estratégias de ajuste, como o chamado "Plano Brasil" formulado pelo economista Adolfo Sachsida, ex-membro da equipe econômica de Jair Bolsonaro (PL) e colaborador de Flávio.

Mas muitos questionam se as medidas seriam para valer, já que o próprio Flávio não diz nada abertamente sobre elas.

Fonte: Folha Online - 10/06/2026

5 pessoas já leram essa notícia  

Notícias

Ver mais notícias

Perguntas e Respostas

Ver mais perguntas e respostas