Bancos veem riscos em projeto de dívidas rurais e pedem ajustes
Publicado em 04/06/2026 , por CNN Brasil
Entidades do setor financeiro defendem ajustes no texto que será votado pelo Senado e alertam para impactos fiscais, jurídicos e sobre o mercado de crédito rural
A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) e a FIN (Confederação Nacional das Instituições Financeiras) entregaram ao Senado Federal uma nota técnica com alertas sobre o PL (Projeto de Lei) que repactua dívidas do agronegócio em tramitação no Senado.
O documento, obtido pelo CNN Agro, não é uma rejeição à proposta, mas um conjunto de preocupações que, na avaliação do setor, precisam ser resolvidas antes da votação final --- que deve ocorrer no próximo dia 10 de junho.
O centro do argumento bancário é que o texto atual é amplo demais: abrange operações demais, beneficiários demais e fontes de recursos que não deveriam ser desviadas para uma linha extraordinária.
"A amplitude do texto aprovado demanda atenção quanto aos seus reflexos sobre o funcionamento do crédito rural, a previsibilidade das políticas de financiamento do setor, a alocação de recursos públicos, a segurança jurídica dos contratos e os incentivos econômicos gerados pela medida", diz o texto.
O resultado, segundo os bancos, pode ser uma distorção estrutural no mercado de crédito rural e um custo fiscal relevante para a União sem focalização adequada.
As instituições financeiras apontam os seguintes pontos críticos: * Inclusão de contratos adimplentes: O projeto permite renegociar dívidas em dia contratadas até o final de 2025 (incluindo a safra 2025/2026), o que estende o benefício para além de quem está em "estresse" financeiro.
* Risco de desfalque no Plano Safra: A linha usaria recursos do Fundo Social, de superávits do Ministério da Fazenda, do Funcafé e de Fundos Constitucionais (FNO, FNE e FCO). Os bancos alertam que desviar esse montante pode secar a fonte de recursos para o Plano Safra tradicional.
* Prejuízos antigos no pacote: O texto alcança dívidas antigas, inclusive inadimplidas há muito tempo e já baixadas como prejuízo pelas instituições, o que traz complexidade contábil e jurídica "de inviável materialização prática".
* Incentivo à inadimplência: A suspensão de cobranças judiciais, execuções fiscais e a proibição de negativar devedores durante o programa acende um alerta sobre os incentivos gerados para o não pagamento de obrigações no campo.
O que os bancos querem mudar
* Delimitar com precisão quais operações podem ser renegociadas — o texto atual mistura crédito rural tradicional, CPRs (Cédulas de Produto Rural), dívidas com tradings, cerealistas e fornecedores de insumos sob o mesmo regime, ignorando diferenças de risco, garantia e estrutura contratual
* Estabelecer critérios cumulativos para os beneficiários — hoje, basta um dos parâmetros (perda de safra, redução de renda, localização em município com histórico de calamidade entre 2019 e 2025) para se enquadrar, sem exigir nexo direto entre a dificuldade financeira e a dívida a ser renegociada
* Proteger as fontes do Plano Safra — FNO, FNE e FCO (Fundos Constitucionais de Financiamento) e Funcafé estão entre os recursos previstos para bancar a linha, mas também compõem o financiamento estrutural da safra; o setor quer clareza sobre limites e separação de funding
* Garantir que a suspensão de execuções judiciais, cobranças e inscrições em cadastros negativos não destrua os incentivos ao pagamento nem distorça a recuperação de crédito em curso
* Preservar a exigência de certidões regulatórias — o texto veda algumas regularidades para acesso à linha, o que colide com obrigações de conformidade socioambiental, trabalhista e fiscal das instituições financeiras
O risco fiscal sem número
A nota técnica registra que o custo para a União "pode alcançar magnitude expressiva" — mas não apresenta cifra. Para o setor bancário, isso é parte do problema: a proposta avança sem avaliação fiscal robusta, sem delimitação precisa do universo elegível e sem clareza sobre como serão cobertos os subsídios implícitos nas taxas, que chegam a 3,5% ao ano para pequenos produtores num cenário de Selic a dois dígitos.
CPRs no centro do debate
Um ponto específico chamou atenção do setor: o tratamento das CPRs financeiras. Os bancos querem que o enquadramento desses instrumentos seja explícito no texto, com critérios objetivos de elegibilidade — e não uma zona cinzenta que gere assimetria entre operações formalmente registradas como crédito rural e passivos constituídos via instrumentos privados amplamente usados no agro.
A posição do setor é que os ajustes não inviabilizam o projeto, mas são condição para que ele funcione sem comprometer a arquitetura do crédito rural nem gerar distorções que afetem a próxima safra.
Fonte: CNN Brasil - 04/06/2026
Notícias relacionadas
- 21/07/2026 Sabesp faz feirão para renegociar dívidas com descontos de até 80%; veja como participar
- 21/07/2026 Fazenda afrouxa regra de empréstimo a estados e destrava crédito de R$ 536 milhões ao Amapá
- 21/07/2026 Celular clonado é usado em golpe e mulher perde mais de R$ 5 mil ao acreditar que ajudava amigo a fazer anúncio em loja virtual
- 21/07/2026 74% dos trabalhadores com consignado CLT têm dois ou mais empréstimos ativos
- 21/07/2026 Master repassou R$ 3,6 bilhões em dívidas para gestora investigada
- 21/07/2026 Amapá admitiu rombo de quase R$ 1 bi no caixa 44 dias após tomar crédito com garantia da União
- 20/07/2026 Grupo Itajobi pede cautelar para reestruturar dívida de R$ 3,7 bilhões
- 20/07/2026 RJ move ação para reaver R$ 641 mi investidos pelo Rioprevidência em fundos do Master
- 20/07/2026 Especialistas orientam a renegociar dívidas que se tornaram impagáveis; confira passo a passo
- 17/07/2026 Galípolo: Criticar o Pix é como dizer que o saneamento básico prejudicou a receita do caminhão-pipa
Notícias
- 21/07/2026 Celular clonado é usado em golpe e mulher perde mais de R$ 5 mil ao acreditar que ajudava amigo a fazer anúncio em loja virtual
- 74% dos trabalhadores com consignado CLT têm dois ou mais empréstimos ativos
- Interpretações e acusações de mudança de opinião marcam PL dos mercados digitais
- Master repassou R$ 3,6 bilhões em dívidas para gestora investigada
- Sabesp faz feirão para renegociar dívidas com descontos de até 80%; veja como participar
- Plano para gasolina com 35% de etanol avança; nova fase de testes está prevista para setembro
Perguntas e Respostas
- Quanto tempo o nome fica cadastrado no SPC, SERASA e SCPC?
- A consulta ao SPC, SERASA ou SCPC é gratuita?
- Saiba quais os bens não podem ser penhorados para pagar dívidas
- Após quantos dias de atraso o credor pode inserir o nome do consumidor no SPC ou SERASA?
- Protesto de dívida prescrita é ilegal e dá direito a indenização por danos morais
- Como consultar SPC, SERASA ou SCPC?
- ACORDO - Em caso de acordo, após o pagamento da primeira parcela o credor é obrigado a tirar o nome do devedor dos cadastros de SPC e SERASA ou pode mantê-lo cadastrado até o pagamento da última parcela?
- CHEQUE – Não encontro à pessoa para qual passei um cheque que voltou por falta de fundos. O que posso fazer para pagar este cheque e regularizar minha situação?
- Problemas com dívidas? Dicas para você não entrar em desespero
- PROTESTO - Qual o prazo para o protesto de um cheque, nota promissória ou duplicata? O protesto renova o prazo de prescrição ou de inscrição no SPC e SERASA?
- Cartão de Crédito: Procedimentos em caso de perda, roubo ou clonagem
- O que o consumidor pode fazer quando seu nome continua incluído na SERASA ou no SPC após o pagamento de uma dívida ou depois de 5 anos?
- Posso ser preso por dívidas ?
- SPC e SERASA, como saber se seu nome está inscrito?
- Acordo – Paga a primeira parcela nome deve ser excluído dos cadastros negativos (SPC, SERASA, etc)
