Selic em 14,5% mantém atratividade da renda fixa; veja estimativas de retorno
Publicado em 30/04/2026 , por Folha Online
A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de reduzir a taxa básica de juros, a Selic, para 14,5% continua favorecendo a renda fixa, com destaque para títulos pós-fixados e indexados à inflação.
Para especialistas ouvidos pela Folha, o segundo corte consecutivo do Banco Central ainda mantém a atratividade de investimentos atrelados à Selic ou ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário), seu equivalente no mercado privado.
O mesmo vale para aplicações que acompanham índices inflacionários, cujas taxas seguem em patamar elevado.
Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento do C6 Bank, afirma que a estratégia de alocação não muda de forma significativa com a nova redução.
"Para investidores mais conservadores, os pós-fixados continuam atrativos, com a Selic em tendência de queda gradual. Para perfis moderados, seguimos preferindo títulos indexados ao IPCA, diante da expectativa de inflação mais elevada no curto prazo."
Segundo o Boletim Focus mais recente, a projeção é que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) termine 2026 em 4,86%. Em março, após alta de 0,88%, o índice acumulou 4,14% em 12 meses. O centro da meta perseguida pelo Banco Central é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo —teto de 4,5% e piso de 1,5%.
"O petróleo segue próximo de US$ 100 —nível semelhante ao da última reunião—, e é provável que o Banco Central mantenha cortes de 25 pontos-base, reforçando que há espaço para novas reduções, mas com ritmo dependente da evolução da commodity", diz Freller.
O cenário externo tem afetado a rentabilidade dos ativos. A guerra no Irã pressiona as cotações do petróleo, elevando expectativas de inflação e levando bancos centrais a adotarem postura mais cautelosa, o que afeta a trajetória de juros.
Desde o início do conflito, as projeções foram revistas: a Selic esperada para o fim de 2026 subiu de 12% para 13%, enquanto a inflação passou de 3,91% para 4,86%.
Levantamento do C6 Bank indica que o Tesouro Selic com vencimento em 2028 pode oferecer retorno real líquido de 7,04%, considerando uma alocação de um ano. O cálculo já desconta Imposto de Renda e inflação projetada.
Para Rafael Winalda, especialista em renda fixa no Inter, os pós-fixados seguem em níveis historicamente elevados. "Mesmo que a Selic encerre o ciclo em torno de 13%, a média anual ficaria próxima de 14%, um patamar alto para o Brasil. Para investidores conservadores, seguem como principal escolha."
Esses ativos acompanham a Selic ou o CDI, o que reduz a sensibilidade às oscilações de curto prazo da taxa básica.
Nesse contexto, Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, vê oportunidades em títulos indexados à inflação. "Taxas reais acima de 7,5% ao ano são estruturalmente insustentáveis, dado o impacto nas contas públicas. Essa alocação oferece uma relação risco-retorno atrativa."
Esses investimentos, atrelados ao IPCA —métrica oficial da inflação brasileira—, acompanham o índice e pagam uma taxa prefixada de juros.
O Tesouro Direto ofertava, nesta quarta, títulos do IPCA com juro real acima de 6,96%. O prazo para 2032, por exemplo, prometia a variação da inflação mais 7,63%.
Já os prefixados ainda geram incerteza. Esses papéis têm taxa definida no momento da compra, o que expõe o investidor ao risco de mudanças inesperadas.
Freller vê espaço para esses ativos em carteiras mais arrojadas. "Aumentamos a exposição a prefixados para perfis com maior tolerância ao risco. Há uma assimetria favorável: a probabilidade de resolução do conflito é maior que a de uma escalada significativa, o que poderia reduzir o preço do petróleo e permitir cortes mais rápidos de juros."
Winalda, por sua vez, adota cautela. "Evitamos recomendar prefixados longos, pois a inflação no Brasil é historicamente volátil. Se houver surpresa altista, esses papéis tendem a sofrer."
A renda variável pode ganhar espaço ao longo do ciclo de queda de juros, embora o momento ainda inspire cautela, especialmente na comparação com a renda fixa. Analistas ainda admitem que a exposição à renda variável pode variar de acordo com o perfil do investidor.
Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Research, diz que, apesar da alta da Bolsa, a rentabilidade da renda variável ainda não compensa os riscos. "É melhor investir em IPCA+, que hoje paga inflação mais cerca de 7%, do que correr o risco da Bolsa, com a dívida em alta, famílias bastante alavancadas e a possibilidade de novas recuperações judiciais de empresas."
Ela também afirma que fatores estruturais —como o equilíbrio fiscal e o cenário eleitoral— podem pesar sobre os rendimentos do Ibovespa no médio prazo.
"A neutralidade do Brasil no cenário geopolítico e o fato de o país ser exportador de commodities, especialmente petróleo, funcionaram como proteção no ambiente global, mas não indicam melhora estrutural dos fundamentos, especialmente do ponto de vista fiscal."
Winalda também vê uma valorização mais limitada no curto prazo, mas aponta um horizonte de melhora. "As reduções de juros ainda não tornam a Bolsa significativamente mais atrativa. Esse movimento deve ganhar força mais adiante, à medida que o ciclo de cortes se intensificar", afirma.
Algo similar é dito por Mello. Para ele, à medida que os juros caem, a busca por retornos maiores pode estimular a migração de recursos para a Bolsa, hoje com baixa participação nos portfólios. Além disso, juros menores tendem a melhorar a estrutura de capital das empresas.
"O arrefecimento do custo financeiro [com juros mais baixos] tende a beneficiar a estrutura das empresas, otimizando as margens operacionais e potencializando o lucro líquido repassado aos acionistas", afirma.
Fonte: Folha Online - 29/04/2026
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