Fraudes no INSS: um ano após operação, devolução de valores a vítimas ainda é parcial
Publicado em 23/04/2026 , por R7
Operação Sem Desconto deu visibilidade a esquema de fraudes bilionário entre 2019 e 2024, envolvendo políticos e empresários
- A Operação Sem Desconto, realizada pela Polícia Federal e CGU, revelou um esquema de fraudes bilionárias no INSS, com R$ 6,3 bilhões descontados irregularmente.
- Até o momento, somente R$ 3 bilhões foram devolvidos a 4,5 milhões de vítimas, com prazo para novas solicitações até 20 de junho.
- Investigação envolve ataques a políticos e empresários, resultando em várias prisões, inclusive de figuras como o ex-presidente do INSS.
- Comissões no Congresso tentaram indiciar diversos envolvidos, mas relatórios foram rejeitados, com investigações ainda em andamento.
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A Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal e CGU (Controladoria Geral da União) em abril do ano passado contra um esquema bilionário de fraudes em benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), completa um ano nesta quinta-feira (23) com menos da metade dos R$ 6,3 bilhões descontados irregularmente dos aposentados e pensionistas devolvidos às vítimas.
De acordo com o balanço mais recente do INSS, R$ 3.011.377.439 já foram reembolsados. O instituto ressarciu 4,5 milhões de vítimas dos descontos feitos por entidades associativas.
Segundo o INSS, outros 748.734 beneficiários ainda estão aptos a pedir a devolução. Quem quiser contestar valores retirados de forma indevida de aposentadorias e pensões, bem como pedir ressarcimento, tem até 20 de junho para fazer isso.
Delações podem ajudar inquérito
De acordo com a Polícia Federal, as pessoas envolvidas no caso podem responder pelos crimes de corrupção ativa, passiva, violação de sigilo funcional, falsificação de documento, organização criminosa e lavagem de capitais.
Segundo a corporação, o esquema era dividido em três núcleos: político, financeiro e de comando.
A investigação já levou para a cadeia autoridades que faziam parte do governo, como o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, apontado como integrante do núcleo político. As suspeitas são de que ele recebia propina mensal de R$ 250 mil para manter o esquema.
Também estão atrás das grades empresários que seriam do núcleo financeiro e os principais beneficiários do esquema, entre eles Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, Cícero Marcelino de Souza Santos e Maurício Camisotti.
A apuração policial ainda parece longe de terminar, mas o inquérito pode avançar a partir de possíveis acordos de delação premiada. Um deles é o de Camisotti, que já confessou que participou das fraudes e assinou um termo com a Polícia Federal.
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça enviou o acordo à PGR (Procuradoria-Geral da República), que vai analisar o conteúdo para verificar se há omissões ou se o documento preenche os requisitos para homologação. Após a análise, o material é devolvido ao ministro do Supremo.
Como começaram as investigações
Apesar de a operação ter ido às ruas em 23 de abril de 2025, as investigações começaram bem antes, em 2023, quando a CGU decidiu apurar o aumento do número de entidades e dos valores descontados dos aposentados.
Foram feitas auditorias em 29 entidades que tinham os chamados ACTs (Acordos de Cooperação Técnica) com o INSS. Com isso, a CGU identificou que 70% das 29 entidades analisadas não tinham entregue a documentação completa ao instituto e nem tinham estrutura para prestar os serviços que ofereciam.
No dia da deflagração da Operação Sem Desconto, a PF cumpriu mais de 200 mandados de busca e apreensão e também prendeu pessoas suspeitas de envolvimento no esquema no Distrito Federal e em 13 estados: Alagoas, Amazonas, Ceará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe.
Além das prisões, foram apreendidos carros de luxo, dinheiro em espécie, joias e quadros.
Até o momento, a PF já cumpriu cinco fases da operação. A mais recente delas ocorreu em março deste ano: a chamada Operação Indébito, um desdobramento da investigação principal. Um dos alvos foi a deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB-CE), que passou a usar tornozeleira eletrônica.
No mês passado, a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS, composta por deputados e senadores, foi concluída com a elaboração de dois relatórios, mas nenhum deles foi aprovado pelos congressistas.
O relator Alfredo Gaspar (PL-AL) sugeriu o indiciamento do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o empresário Fábio Luís Lula da Silva. Segundo o relatório, ele teria recebido repasses do “Careca do INSS” por meio da amiga e empresária Roberta Luchsinger.
Com cerca de 4.400 páginas, o texto do deputado também propunha o indiciamento do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, do senador Weverton Rocha (PDT-MA) e de outras 213 pessoas.
O placar foi de 19 a 12 pela rejeição. Mesmo assim, o relatório de Gaspar foi entregue ao STF para contribuir com as investigações sobre o caso.
Um relatório alternativo com quase 2.000 páginas — com 130 pedidos de indiciamento, incluindo o do ex-presidente Jair Bolsonaro — foi elaborado por parlamentares governistas e levado para instituições como PF e PGR.
Instalada em agosto de 2025, ao longo do seu funcionamento, a CPMI determinou a prisão em flagrante de quatro pessoas: Rubens Oliveira Costa, Carlos Roberto Ferreira Lopes, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz e Jucimar Fonseca da Silva.
INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)
PF (Polícia Federal)
CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito)
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