Chocolate fake vai acabar? O que muda no chocolate que você come no Brasil
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Chocolate fake vai acabar? O que muda no chocolate que você come no Brasil

Publicado em 17/04/2026 , por BBC Brasil

Queixas de consumidores sobre qualidade do produto é antigo. Recentemente, Câmara dos Deputados aprovou mudanças na quantidade de cacau para um produto ser chamado de chocolate.

O Congresso aprovou, na quarta-feira (15), um projeto de lei que pode redefinir o que chamamos de chocolate no Brasil. A proposta segue agora para sanção presidencial — etapa final antes de virar lei.

As novas regras redefinem as quantidades mínimas de cacau para que o produto possa ser comercializado como chocolate e obrigam que o percentual desse ingrediente apareça na frente das embalagens.

Com a proposta, será exigido ao menos 35% de sólidos totais para chocolates em geral, e 25% para os ao leite.

Atualmente, para um produto ser chamado de chocolate no Brasil, basta ter 25% de sólidos totais de cacau — inferior aos padrões internacionais. Na União Europeia, por exemplo, o mínimo exigido é de 35% para chocolate em geral e 30% para a versão ao leite.

Com a aprovação no Congresso, o texto também detalha melhor o que conta como "sólidos de cacau" e estabelece limites para substituições: no caso do chocolate com no mínimo 35% de cacau, ao menos 18% da composição deverão ser de manteiga de cacau e 14% de componentes isentos de gordura, além de um teto de 5% para outras gorduras vegetais.

Já no caso do chocolate ao leite, é exigido que a composição tenha ao menos 14% de sólidos totais de leite ou seus derivados.

Para Luciana Monteiro, fundadora e diretora da Ara Cacao, uma consultoria para inovação em chocolates, a mudança contribuiu para melhorar a qualidade do chocolate e torna a composição dos produtos mais clara para o consumidor.

Ela considera, porém, que a exigência de ao menos 25% de cacau para o chocolate ao leite na nova lei manteve um patamar baixo para esse produto.

"Agora, eu, como consumidora, vou ter um chocolate que custa R$ 7 e outro que custa R$ 10, só que eu vou saber que um tem 25% de cacau e o outro tem 35%. A nossa expectativa é que cada vez mais o consumidor entenda que o chocolate é feito de cacau. Se eu tenho mais cacau, eu tenho mais qualidade, tenho mais sabor", comemora.

O projeto ganhou força em meio a uma queixa crescente entre os consumidores: o chocolate vendido pela grande indústria no Brasil virou "pura gordura e açúcar". Agora, com a votação concluída, o debate se desloca para como as novas regras serão implementadas na prática e fiscalizadas.

Segundo especialistas ouvidas pela BBC News Brasil, essa percepção de piora na qualidade do chocolate faz sentido e reflete fatores como a baixa qualidade do cacau utilizado e mudanças nas composições dos produtos para reduzir custos ao longo de décadas.

Além disso, a substituição de produtos de "chocolate" por "sabor chocolate" nas prateleiras dos mercados — produtos que levam menos de 25% de cacau na composição — reforça essa impressão.

Esse "sabor chocolate" é encontrado em biscoitos, como o Choco Biscuit, da Bauducco, e também em bombons de grandes marcas, como o clássico Serenata de Amor, da Garoto, e seu concorrente, o Sonho de Valsa, da Lacta. Nenhum deles tem chocolate de verdade em suas coberturas.

Hoje, não há regras para o que é "sabor chocolate" no Brasil. Com o projeto de lei aprovado no Congresso, esses produtos terão que ter ao menos 15% de sólidos de cacau.

Segundo a consultora Luciana Monteiro, que já atuou em grandes empresas do setor, a mudança também é um avanço.

"Pela minha experiência [na indústria de chocolate], tem produtos com apenas 6% ou até mesmo 3%, só pra dar cor".

Enquanto as novidades não entram em vigor, entenda melhor o que fez o chocolate piorar no Brasil e como saber se o que você está comprando não é "fake".

Segundo especialistas em chocolate ouvidas pela BBC News Brasil para uma reportagem publicada em 2025, "chocolates mais doces e sem gosto" não são apenas uma percepção.

"Sim, o chocolate piorou. Isso é realidade", afirma Luciana Monteiro.

Antes de se tornar consultora, Monteiro atuou dez anos em grandes empresas, como a multinacional Bunge, onde desenvolvia gorduras para substituir manteiga de cacau na produção de chocolates, e a suíça Barry Callebaut, uma das gigantes mundiais em processamento de cacau.

Também se especializou academicamente na área, com mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um ano como pesquisadora convidada na Universidade Estadual de Utah, nos Estados Unidos.

Monteiro diz que a piora do produto é consequência de mudanças no processo de produção e nos insumos utilizados ao longo de décadas, em ações da indústria para reduzir custos.

Esse processo, ressalta, se agravou com a disparada do preço do cacau há cerca de dois anos. O valor da commodity chegou a quadruplicar, atingindo o recorde de mais de US$ 10 mil por tonelada no final de 2024, sob impacto de quebras de safra na África Ocidental, maior região produtora do mundo, devido a questões climáticas e pragas.

Depois disso, houve uma recuperação da produção e o valor do produto recuou para menos de US$ 4 mil. Para Monteiro, essa queda de valor pode evitar que o chocolate fique mais caro no Brasil mesmo com as novas regras que demandarão mais cacau no produto.

Mas a perda de qualidade do chocolate, relembra, é um processo mais antigo e começa com a crise que assolou as fazendas de cacau na Bahia há quarenta anos, quando uma praga, a vassoura-de-bruxa, fez a produção brasileira encolher quase 80% entre 1985 e 1999, de cerca de 449 mil toneladas ao ano para apenas 96 mil.

Na época, o país era o segundo maior produtor mundial. Hoje é o sexto, com cerca de 300 mil toneladas de cacau ao ano, segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO).

Os dois primeiros, Costa do Marfim e Gana, chegaram a produzir juntos quase três milhões toneladas de cacau na safra 2022/2023, mas a produção caiu 23% para 2,22 milhões toneladas na safra seguinte, segundo projeções iniciais da ICCO, o que impactou na disparada do preço recente.

A crise da vassoura-de-bruxa, nota Monteiro, levou à piora da qualidade do cacau brasileiro.

E, nesse contexto de menos oferta da matéria prima básica do chocolate, a exigência mínima de sólidos de cacau foi reduzida para 25%, como uma nova regulamentação adotada em 2005 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Além do percentual baixo, a norma atual também dá flexibilidade aos tipos de sólido que podem ser utilizados para atingir o mínimo.

"Esse sólido de cacau [para cumprir o mínimo de 25%] pode ser pó de cacau, manteiga de cacau e massa de cacau. Isso também é uma grande diferença da nossa indústria. O pó de cacau entra muitas vezes ali como um redutor de custo", explica.

"Então, ele não tem a mesma performance [que a massa ou a manteiga], não tem o mesmo sabor, mas ele, dentro da legislação, está incluso [no que pode ser usado]", continua.

"E há também uma margem muito grande para gorduras substitutas da manteiga de cacau. Então, gorduras vegetais podem entrar na formulação sem problema nenhum, vai continuar sendo chamado de chocolate", disse ainda.

Monteiro ressalta que isso viabilizou o crescimento da indústria no país. Mas, como a produção de cacau não se recuperou na mesma velocidade, a qualidade piorou.

"Até início dos anos 1990, as fazendas cuidavam melhor do seu cacau, no processo de fermentação, de secagem. Então, tinha uma matéria-prima de maior qualidade", avalia.

"Como a indústria se desenvolveu, cresceu, e a matéria-prima estava escassa, os critérios de qualidade foram muito reduzidos. Até porque a qualidade não é reconhecida. Se eu faço cacau de boa qualidade e você faz um cacau pior, a indústria vai pagar o mesmo para mim e para você. Não existe um incentivo para agregação de valor", destaca.

Professora do curso de Lazer e Turismo da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do projeto de extensão Cacau e Cultura, Mariana Bueno também vê grande pressão na indústria por redução de custos e substituições nos insumos.

A manteiga de cacau, segundo ela, é um ingrediente importante para garantir que o chocolate derreta na temperatura da boca, que é de 37 graus.

Como o insumo é demandado também pela indústria de cosméticos, esse é mais um fator que pressiona as empresas de chocolate a buscarem gorduras mais baratas.

"O óleo de palma é um tipo de gordura vegetal usado em substituição à manteiga de cacau. Mas, muitas vezes, a indústria ainda substitui esse óleo de palma por óleo de palmiste, que é muito inferior. Então, é a substituição da substituição", exemplifica.

Outro insumo que tem sido substituído pela indústria de chocolate é o leite. Na lista de ingredientes de produtos de grandes marcas, é fácil encontrar o permeado de soro de leite em pó e soro de leite em pó.

Estudiosa do assunto há mais de uma década, Zélia Frangioni é autora do Chocólatras Online, que começou em 2014 como blog e hoje está presente nas principais redes sociais.

Na sua visão, a piora do chocolate nas últimas décadas reflete um mercado muito competitivo no país e a demanda dos consumidores por produtos baratos.

"As empresas tentam ganhar de qualquer jeito, fazem produtos cada vez mais doces".

Em contraponto, ela diz que tem crescido a oferta de chocolates de excelente qualidade no Brasil, que seguem os princípios do movimento "bean to bar" [do grão à barra], método de produção que controla toda a cadeia produtiva, com cuidados especiais na plantação e processamento do cacau, inclusive ambientais e sociais.

Além do cacau melhor, esse tipo de chocolate é feito com poucos insumos, sem usar as substituições da grande indústria.

"O cacau é igual às uvas dos vinhos. Então, dependendo da região onde ele foi plantado, como foi fermentado, como foi secado, você vai ter diferentes notas de sabores". explica.

"Mas não é só uma questão sensorial, é também de sustentabilidade. O produtor do bean to bar paga muito melhor o produtor de cacau. Ele vai ser valorizado da forma justa", diz ainda.

Todos esses cuidados, ressalta, impactam os preços.

"Falando dos melhores chocolates no Brasil, você compra uma barra [de 80 gramas] por R$ 30 a R$ 35. É caro, sim, comparado com a barra de uma grande marca, que vai custar R$ 9 a R$ 10. É três, quatro vezes mais caro", compara.

Em um país desigual e de renda média baixa como o Brasil, Frangioni sabe que o chocolate "bean to bar" não cabe em todos os bolsos. Por isso, uma alternativa é reduzir o consumo e investir na qualidade.

"Eu prefiro comprar um chocolate de melhor qualidade e comer menos quantidade, mesmo porque chocolate em quantidade, não importa a qualidade, não vai fazer bem pra saúde. É para consumir com moderação", recomenda.

"Então, escolha que tipo de chocolate você quer e o quanto você está disposto a pagar por isso. Tem os intermediários", reforça.

Uma dica para identificar um bom produto, segundo ela, é ler o rótulo, pois os insumos são listados em ordem decrescente de quantidade — ou seja, os mais presentes aparecem primeiro.

"O cacau tem que ser um dos principais ingredientes. O açúcar não deve ser o primeiro ingrediente. Chocolate bom não tem aromatizante. Por uma coisa muito simples, se você usa um cacau bom, você não precisa de aromatizante [que serve para realçar o sabor e o aroma dos alimentos]", orienta.

Esse cuidado é importante inclusive com os chocolates mais caros.

"Os chocolates caros nem sempre são bons. Às vezes é só marketing. Tem marcas muito chiques que você olha a lista de ingredientes e vê que não é ingrediente bom".

Nutricionista do programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), Mariana Ribeiro reforça que o excesso de chocolat

Fonte: BBC - Brasil - 17/04/2026

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