Alliança quer renegociar dívida após saída de Tanure e cria mal estar com gestora
Publicado em 04/03/2026 , por Folha Online
A Alliança Saúde, rede de laboratórios de imagem que fechou nesta semana a venda de sua operação para a Geribá Investimentos, tem mais um problema para resolver com o fim da passagem do empresário e ex-controlador Nelson Tanure: encaminhar o prolongamento de uma dívida de R$ 400 milhões com debenturistas.
No dia 26 de março, a Alliança Saúde convocou uma assembleia com a Vórtx Distribuidora de Títulos Mobiliários Ltda., representante dos debenturistas, para explicar as recentes alterações no controle da companhia.
Ao longo do mês passado, Tanure perdeu o controle acionário da empresa após a execução de dívidas em que suas ações na rede de saúde foram dadas como garantia. Entraram no negócio os fundos Opus e Prisma Infratelco.
Além de explicar essas trocas, a Alliança quer alongar a dívida adquirida em outubro de 2022, logo após a entrada de Tanure, e que terá vencimento em 2027. O objetivo do acordo é represar os recursos para fortalecer a estrutura de capital da rede de laboratórios.
Nesta terça (4), a Vórtx respondeu ao comunicado. Disse que a assembleia foi convocada exclusivamente pela Alliança, sem alinhamento, mesmo com as tentativas de contato prévio para compreender o cenário em que a companhia se encontra.
"Em que pese as diversas tentativas de contato do agente fiduciário [Vórtx] com a emissora [Alliança], nas últimas semanas, [a assembleia] possui vícios legais e regulatórios que, no entendimento do agente fiduciário, a tornam inadequada para deliberar sobre a recente alteração de controle acionário da emissora e que impactam diretamente as debêntures", afirma a gestora.
Ainda assim, a Vórtx afirma que estará presente na assembleia para acompanhar os procedimentos e assegurar o interesse dos debenturistas. A gestora também convocou uma assembleia própria com os credores para discutir a possibilidade de executar o vencimento antecipado da dívida.
As debêntures foram emitidas no valor total de R$ 400 milhões, em 2022, ano em que Tanure iniciou o processo para se tornar o principal acionista da Alliança. De acordo com a documentação da época, os papeis pagam o equivalente ao CDI + 2,75% ao ano, com distribuição de juros semestrais.
Além da Vórtx, que é o agente fiduciário e representa os investidores, a captação foi estruturada e distribuída pelo banco BR Partners.
Segundo o edital de convocação feito pela Alliança, as debêntures foram elaboradas em espécie quirografária, ou seja, o detentor do papel tem somente o direito de receber o valor emprestado. A reunião, no entanto, pode discutir a possibilidade de uma reestruturação da dívida com a transformação desses papeis em garantia real. Assim, os credores podem ter direito às ações da empresa ou receber proteções adicionais.
Vale lembrar que o comunicado da empresa de saúde foi emitido antes do anúncio de compra da Alliança pela Geribá, que aconteceu nesta terça (3). Atualmente, o valor de mercado da companhia é de pouco mais de R$ 636 milhões e as ações negociadas na B3 acumulam uma desvalorização de 65% nos últimos 12 meses.
Procurada, a Alliança não se manifestou até a publicação desta reportagem.
Quando entrou no negócio, em 2022, Tanure comprou ações do fundo Pátria e foi aumentando sua posição ao longo do tempo. Até o mês passado, ele controlava pouco mais de 66% da rede através da Lormont Participações e do fundo Fonte de Saúde.
Com mais de 6.000 funcionários, entre colaboradores e médicos, os resultados operacionais da Alliança são bons. No balanço do 3° trimestre de 2025, a receita bruta ajustada chegou a R$ 347 milhões, recorde da série histórica, e houve reversão de prejuízo no lucro líquido do 2° trimestre para R$ 9,6 milhões. A dívida diminuiu e chegou a R$ 500 milhões, uma queda de 23% na comparação com o mesmo período de 2024.
Entre o conselho de administração do grupo estão figuras como a filha de Tanure, Isabella, que é médica e preside o colegiado, e o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que se tornou conselheiro independente no final de janeiro.
Tanure perdeu o controle da companhia após uma crise de liquidez que se abateu sobre os seus negócios com a queda do Banco Master e a recuperação judicial da Ambipar, duas empresas cujos donos, Daniel Vorcaro e Tércio Borlenghi, se relacionam diretamente com o ex-dono da Alliança.
No final do ano passado, a companhia anunciou uma emissão de ações privadas no valor de R$ 797 milhões. O objetivo era injetar recursos na estrutura operacional e capitalizar um adiantamento de R$ 532 milhões feito pela Lormont em 2025. O prazo para exercer o direito de compra, no entanto, foi prorrogado por duas vezes e até agora a Alliança não anunciou o resultado da operação.
Recentemente, a Vórtx foi responsável por liderar o processo de compra da Emae, anteriormente adquirida do governo de São Paulo por Tanure. Com a crise na Ambipar, os credores que ajudaram Tanure a levantar os mais de R$ 1 bilhão empenhados na compra da Emae anteciparam o pagamento da dívida e o controle da companhia foi parar nas mãos da Sabesp.
No mês passado, Tanure fechou acordo com a XP e com a Sabesp para encerrar uma disputa judicial envolvendo a operação.
Fonte: Folha Online
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