Queijo ralado se torna um dos mercados mais disputados da cadeia láctea
Publicado em 09/06/2026 , por CNN Brasil
Em um mercado de margens apertadas, empresas apostam em produtos frescos, refrigerados e de maior valor agregado para atrair consumidores
O mercado brasileiro de queijo ralado movimenta cerca de 25 mil toneladas por ano e se consolidou como um dos segmentos mais competitivos da indústria de lácteos. No entanto, por trás dos volumes expressivos e da forte presença nas gôndolas, o setor convive com desafios relacionados à rentabilidade, à percepção de valor pelo consumidor e à crescente busca por diferenciação.
Segundo Angelo Sartor, CEO da RAR Agro & Indústria, o queijo ralado se tornou um dos mercados mais disputados dentro da cadeia láctea brasileira, reunindo desde grandes marcas nacionais até empresas regionais que competem por espaço no varejo.
"É um mercado extremamente disputado. Os volumes são significativos, praticamente todo mundo consome queijo ralado. Existem os líderes nacionais, mas também muitas marcas regionais atuando nesse segmento", afirma.
Apesar da demanda, o setor enfrenta uma situação considerada contraditória do ponto de vista econômico. Diferentemente do que muitos consumidores imaginam, o queijo ralado passa por um processo industrial que agrega custos e reduz o rendimento da matéria-prima. Ainda assim, frequentemente é comercializado por valores inferiores aos do queijo vendido em pedaços.
Sartor explica que existe uma percepção equivocada em relação ao produto. "O consumidor costuma acreditar que o queijo ralado deveria custar menos do que uma fração de queijo. Mas a realidade é justamente o contrário", diz.
Segundo o executivo, para produzir o queijo ralado tradicional, o laticínio utiliza um queijo já pronto, que passa por um processo de desidratação para aumentar sua vida útil e permitir a comercialização em temperatura ambiente.
"O queijo ralado nada mais é do que um queijo que foi ralado e desidratado. Quando retiramos a umidade, ocorre uma perda de aproximadamente 15% da massa original. Ou seja, você pega 100 gramas de queijo e transforma em cerca de 85 gramas antes de embalar o produto", explica.
Na prática, isso significa que há menos produto disponível para venda após o processamento, além dos custos industriais envolvidos na transformação e embalagem. Mesmo assim, a intensa concorrência entre as empresas acabou pressionando os preços para baixo ao longo dos anos.
"Houve uma competitividade muito grande dentro desse mercado e isso acabou puxando o preço do queijo ralado para níveis inferiores ao que seria esperado pelo processo produtivo", afirma Sartor.
A disputa por participação de mercado também levou as empresas a buscarem novas estratégias para agregar valor ao produto. Nos últimos anos, alguns laticínios passaram a investir em versões premium, refrigeradas e sem desidratação, tentando reproduzir a experiência de consumir um queijo recém-ralado.
A própria RAR apostou nesse conceito ao lançar um queijo ralado fresco, que preserva características sensoriais mais próximas do produto consumido diretamente de uma peça de queijo.
"As características são as mesmas de quando você pega uma fração de queijo e rala na hora sobre o prato. O produto mantém mais sabor, mais frescor e entrega uma experiência diferenciada ao consumidor", afirma.
O desafio, porém, está na mudança de hábito do consumidor. Como o produto precisa permanecer refrigerado, ele deixa de ocupar o espaço tradicional dos queijos ralados convencionais nas áreas secas dos supermercados.
"O consumidor está acostumado a procurar queijo ralado na prateleira. Quando ele passa para a área refrigerada, existe uma mudança de comportamento que leva tempo para ser assimilada", explica.
A busca por diferenciação reflete uma tendência mais ampla observada na indústria de alimentos. Em vez de competir apenas por volume, parte das empresas passou a investir em qualidade, origem dos ingredientes e experiências de consumo mais sofisticadas.
No caso da RAR, a estratégia está alinhada ao posicionamento da empresa no mercado de lácteos premium. A companhia atua em categorias de maior valor agregado e aposta na fidelização do consumidor por meio da qualidade dos produtos.
"Nós procuramos nos posicionar não pelo volume, mas pela qualidade. Temos um consumidor fiel que reconhece as características dos nossos produtos e busca essa diferenciação", afirma Sartor.
Mesmo com margens menores do que as obtidas na venda de queijos fracionados, o queijo ralado continua sendo considerado um produto estratégico pelas indústrias. Isso porque ele amplia a presença das marcas nos pontos de venda e fortalece o relacionamento com o consumidor.
"Muitas vezes a margem é menor do que a obtida com o queijo vendido em pedaços, mas o queijo ralado tem uma função importante de fidelização. Ele mantém a marca presente no dia a dia do consumidor e cria uma conexão com outros produtos da linha", explica.
O segmento também se beneficia da ampla distribuição nacional. Como praticamente todos os grandes laticínios atuam nessa categoria, o queijo ralado se tornou um produto fundamental para aproveitar estruturas logísticas, canais comerciais e espaços já conquistados no varejo.
Ao mesmo tempo, o crescimento do consumo de produtos premium abre espaço para novas oportunidades. A indústria observa uma parcela crescente de consumidores disposta a pagar mais por qualidade, origem e diferenciação, movimento que também alcança o mercado de queijos ralados.
Para Sartor, a tendência é que o setor continue dividido entre produtos de grande volume e opções voltadas a consumidores que valorizam atributos específicos.
"O mercado continuará tendo espaço para produtos de massa, mas também para aqueles consumidores que buscam qualidade, sabor e uma experiência diferenciada. É nesse segmento que nós acreditamos e continuamos investindo", apontou.
Fonte: CNN Brasil - 09/06/2026
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