Endividamento familiar recorde; o que explica índice e o que pode ser feito
Publicado em 03/06/2026
Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida — o maior índice desde o início da série histórica da Peic (CNC). Alta taxa de juros, crédito rotativo e apostas online estão entre os principais fatores.
O Brasil atingiu em 2026 o maior índice de endividamento das famílias desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Em abril, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Este índice recorde é impulsionado pela alta taxa de juros, crescimento do crédito rotativo, pressão do custo de vida e avanço das apostas online sobre o orçamento doméstico. O aumento do comprometimento da renda familiar acendeu alerta sobre impactos econômicos e sociais do superendividamento no país.
Especialistas apontam que o problema vai além do consumo e afeta diretamente o crescimento econômico, o mercado de trabalho e a capacidade de investimento das famílias. O Congresso Nacional discute medidas para ampliar a proteção aos consumidores endividados e fortalecer programas de renegociação, como o Novo Desenrola Brasil, relançado pelo governo federal em maio de 2026.
O custo do crédito
O cartão de crédito rotativo consolida-se como a linha mais cara do mercado, com taxas entre 428% e 440,5% ao ano. É o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias e compromete sozinho 54% da renda familiar. O cartão parcelado registra juros de 181,2% ao ano; cheque especial e crédito pessoal não consignado chegam a aproximadamente 130% e 106,6%, respectivamente.
A taxa Selic em 14,5% ao ano é referência para todas as taxas de juros no Brasil. "Quando ela está muito elevada, os bancos passam a emprestar a taxas ainda maiores", afirma o professor Marcos Melo, do IBMEC Brasília. O Brasil tem a segunda maior taxa real de juros do mundo (9,3%), atrás apenas da Rússia.
Apostas online como fator estrutural
As apostas online surgiram como nova e relevante causa entre 2024 e 2025. "As apostas online deixaram de ser um gasto de entretenimento residual e passaram a atuar como um dreno severo na restrição orçamentária das famílias", afirma a economista Catarina Carneiro, da CNC. Estudo da entidade estima que cerca de R$ 30 bilhões por mês deixaram de circular no consumo tradicional para abastecer sites de apostas desde a regulamentação das plataformas em 2023.
O Novo Desenrola Brasil
Lançado em maio de 2026 pela Medida Provisória 1.355/2026, o programa oferece descontos de até 90% do valor total da dívida, juros com teto de 1,99% ao mês e retirada do nome dos órgãos de proteção ao crédito para dívidas de até R$ 100. Uma regra importante: participantes terão o CPF bloqueado para apostas online por 12 meses.
O comprometimento da renda das famílias com dívidas saltou de aproximadamente 22% em 2019 para 29,7% no fim de 2025. O endividamento total em relação à renda atingiu recorde histórico de 49,9% — quase metade de tudo que as famílias recebem em um ano já está comprometido com dívidas.
Fonte: Jovem Pan
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