Acesso a crédito não é sinônimo de bem-estar financeiro
Publicado em 02/06/2026 , por Folha Online
O alto endividamento das famílias brasileiras —que compromete cerca de 30% da renda— ocorre simultaneamente ao processo de inclusão financeira observado nos últimos anos. A abertura das informações de crédito por modalidade e faixa de renda deixa evidente que essa transformação está associada ao perfil de endividamento das famílias de baixa renda, bastante distinto do restante da população.
Da carteira de crédito das famílias com renda de até dois salários mínimos, 38,6% estão concentrados em modalidades sem garantia, e essas mesmas famílias respondem por 39,3% das operações no rotativo do cartão de crédito, a modalidade mais cara do mercado.
Para uma família nessa faixa de renda, qualquer choque —uma despesa de saúde ou a perda temporária do emprego— pode significar a necessidade de recorrer ao crédito mais caro disponível. A pesquisa de resiliência financeira da OCDE ajuda a dimensionar essa vulnerabilidade: 20% das famílias que recebem até dois salários mínimos não conseguiriam cobrir suas despesas por mais de uma semana após a perda da principal fonte de renda. Sem poupança ou reserva, o crédito caro acaba funcionando como um seguro improvisado.
Essa explicação —de que o endividamento em modalidades caras decorre de choques financeiros— costuma dominar o debate. E ela certamente importa. Afinal, famílias sem reservas estão mais expostas a imprevistos e têm menos capacidade de absorver perdas temporárias de renda. Mas evidências recentes sugerem que essa não é toda a história.
Além dos choques adversos, existe também o erro de decisão. Estudos mostram que indivíduos que recorrem com maior frequência às modalidades mais caras de crédito não são apenas mais vulneráveis financeiramente. Eles também apresentam maior dificuldade para tomar decisões complexas. Assim, parte do endividamento excessivo decorre não apenas da escassez de recursos mas também da dificuldade de avaliar alternativas em um mercado financeiro cada vez mais sofisticado.
Apesar dos avanços da inclusão financeira, a compreensão da população sobre temas como inflação, juros, risco e retorno dos investimentos permanece abaixo da média mundial. Mais preocupante, vem se deteriorando ao longo do tempo, segundo a OCDE. Parte relevante do desempenho dos estudantes brasileiros em letramento financeiro é explicada por competências básicas de matemática e leitura. Mas, em matemática, o Brasil também fica abaixo da média mundial, ocupando a 62ª posição entre 81 países.
A rápida expansão do acesso ao sistema financeiro trouxe benefícios inegáveis, mas também novos desafios. À medida que o crédito se tornou mais acessível e os produtos financeiros ficaram mais numerosos, aumentou a exigência de que consumidores comparem alternativas, compreendam custos e avaliem riscos. Para muitas famílias, especialmente as de menor renda e escolaridade, esse processo não foi acompanhado por avanços equivalentes em conhecimento e preparo para lidar com escolhas financeiras.
Nesse contexto, ganha relevância a discussão sobre a qualidade da inclusão financeira. Isso exige não apenas melhores produtos e mecanismos de proteção ao consumidor mas também enfrentar um problema mais profundo: as limitações educacionais que trazem maior imprevisibilidade de renda e que comprometem a capacidade de milhões de brasileiros de tomar decisões em um ambiente cada vez mais complexo. Afinal, inclusão e acesso não são sinônimos de bem-estar financeiro.
Fonte: Folha Online - 01/06/2026
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