Livro ouve endividados para discutir efeitos ambíguos do crédito nas periferias
Publicado em 04/05/2026 , por Folha Online
Os brasileiros têm batido recordes de endividamento, alcançando o maior comprometimento da renda mensal com juros e amortizações dos últimos 20 anos. Como seria de esperar, o assunto mobiliza atenções. Mas não é apenas pelo tema oportuno que o livro "Parcelado: Dinâmicas de Consumo na Periferia", recém-lançado, desperta interesse.
Na obra, o geógrafo Kauê Lopes dos Santos faz algo raro: ele escuta os endividados. Em particular, os endividados da periferia de São Paulo, que apesar de suas especificidades são capazes de revelar experiências comuns de consumo e dívida vividas pela maioria pobre e de classe média da população brasileira.
Santos quer entender as causas e os efeitos do consumo de bens duráveis, como eletrodomésticos e eletrônicos, que se viabilizou nas últimas décadas, mesmo nas periferias, com a prática de pagamento fracionado dos produtos. Uma parte importante da pesquisa deriva de entrevistas com os consumidores que, pelo próprio mecanismo de financiamento, se tornam também devedores.
Ao narrar decisões de compra, bem como o espaço que o compromisso de pagamentos futuros ocupa na cabeça e na vida dos consumidores periféricos, Santos revela um fenômeno mais complexo do que cabe nas estatísticas.
O acesso crescente ao crédito, franqueado a parcelas cada vez maiores da população brasileira depois do controle da inflação e da diminuição da pobreza, desde os anos 1990, teve efeitos ambíguos sobre os moradores das periferias, afirma o geógrafo.
Por um lado, o acesso ao crédito facilitou o acesso a bens de consumo, além de possibilitar investimentos produtivos: a compra de uma geladeira extra e de um fogão por uma confeiteira, ou de um computador para os filhos estudarem. Por outro lado, tem levado ao endividamento crônico de uma população com trabalho e renda precários, incertos.
"A gente tem situações de compra parcelada para a pessoa se tornar confeiteira, para se tornar entregadora de aplicativo. Existe essa possibilidade. Se o meu interlocutor está me dizendo que esse crédito possibilitou uma melhoria da vida dele, não sou eu que vou falar que não é", diz o autor.
"Mas eu posso problematizar isso, posso pensar em outros termos", observa. É o que faz, logo em seguida, ao lembrar que o empréstimo com juros estratosféricos para consumo está longe de ser o tipo de crédito ideal quando um microempreendedor busca fazer investimentos —embora muitas vezes seja o único crédito ao seu alcance, na periferia.
Assim, nos inevitáveis momentos de dificuldade, quando se perde renda, a dívida que não é paga —multiplicada em juros compostos— pesa mais sobre os mais pobres, e o acesso facilitado ao crédito pode acentuar desigualdades, em vez de desfazê-las. É o avesso de uma rede de proteção: é um alçapão no fundo do poço.
Ao analisar essa ambivalência da democratização financeira, Santos tira conclusões negativas, críticas. O livro constrói o argumento de que o custo da vida parcelada é maior do que o benefício. Mas a riqueza do texto está sobretudo na complexidade que o geógrafo revela, ao se aproximar das experiências individuais de consumo, antes mesmo de chegar a qualquer conclusão.
É notável a delicadeza com que ele descreve as hesitações de uma senhora, dentro da loja de uma grande rede varejista, em busca de um computador para os filhos. A cena se passa em uma rua comercial movimentada da Brasilândia, em São Paulo. Depois de extensa pesquisa para encontrar um aparelho que fosse desejável e coubesse em seu orçamento, dona Elenice recebe a informação do vendedor de que o modelo escolhido estava esgotado.
O lojista apresenta opções. "Com postura segura e discurso treinado, foi minando a dúvida", escreve Santos. "Por fim, confirmou que o pagamento poderia ser feito em ‘suaves’ 24 prestações, a única condição que cabia no orçamento da faxineira. D. Elenice ouviu tudo com atenção, respirou fundo e decidiu. A compra foi feita ali mesmo. Na hora do pagamento, dobrou com cuidado o recibo e o guardou na carteira. [...] ‘Foi caro, mas vai ser bom para os meus meninos estudarem, né?’"
O talento narrativo de Santos não diminui —ao contrário, acentua— a objetividade da descrição etnográfica. Ao mesmo tempo que chama a atenção para a capacidade persuasória do vendedor, não deixa dúvidas de que Elenice e seus filhos precisavam daquele computador. Não há caricatura de manipulação na cena, tampouco de puro cálculo utilitário.
Na análise mais geral, o geógrafo critica os mecanismos de mercado que, segundo ele, "catalisam" e tornam mais velozes os ciclos de consumo: a publicidade, o acesso ao crédito e a obsolescência programada dos produtos eletrônicos.
Mas Santos não se ocupa das escolhas de gastos feitas pelo governo que, pode-se argumentar, obrigam o Banco Central a manter os juros em patamares altos, para prejuízo das camadas mais pobres da população.
Questionado sobre essa ausência, o geógrafo diz preferir deixar esse aspecto do problema para os economistas, que "tratam disso melhor do que eu trataria".
Fonte: Folha Online - 02/05/2026
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