Especialistas veem cenário de "retroalimentação" do endividamento no Brasil
Publicado em 20/04/2026 , por CNN Brasil
Relatório do FGV Ibre aponta que juros altos, como Selic a 14,75% e taxas reais batendo 9,51%, dificultam o pagamento da dívida, aumentando a inadimplência das famílias
O Brasil vive um momento recorde de endividamento. Dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio) indicam que 80,4% das famílias possuem algum tipo de dívida, enquanto cerca de 27,5 milhões de pessoas estão com o nome negativado por inadimplência - ou seja, não conseguem honrar seus compromissos financeiros.
Levantamentos recentes mostram que, mesmo com aumento da renda e níveis historicamente baixos de desemprego, aproximadamente 30% da renda familiar é destinada ao pagamento de dívidas.
Esse cenário se agrava diante de uma taxa básica de juros de 14,75% e juros reais de 9,51% - entre os mais altos do mundo, atrás apenas da Turquia -, o que torna a dívida mais difícil de ser paga.
Ainda assim, 2025 foi um ano recorde para as concessões de crédito, com dezembro atingindo R$ 406,61 bilhões em empréstimos à pessoa física, sustentada pela facilidade de obter crédito no pós pandemia.
O elevado custo do crédito, somado ao alto nível de endividamento, cria um efeito cascata difícil de conter, tornando o crédito um dos principais fatores de deterioração da saúde financeira das famílias.
Em artigo recente, especialistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre) analisam as causas desse processo e destacam o fenômeno de “retroalimentação” da dívida como elemento central.
Segundo os economistas Flávio Ataliba Barreto, Pedro Avelino e João Mário Santos de França, o crédito no Brasil continua em expansão, mas de forma desigual quando se trata das famílias.
Enquanto o crédito agregado cresce - impulsionado sobretudo pelo mercado de títulos e pelo financiamento do setor público -, as famílias permanecem mais expostas ao crédito bancário tradicional, com taxas significativamente mais elevadas, que chegam a cerca de 62% ao ano.
A situação se torna ainda mais crítica no caso do crédito rotativo do cartão. Nesse modelo, quando o consumidor não paga o valor total da fatura, o saldo é transferido para o mês seguinte com incidência de juros elevados, gerando um efeito de “bola de neve”.
Segundo o Banco Central, essas taxas giram em torno de 400% ao ano, tendo atingido 435,9% em fevereiro de 2026. Hoje, o gasto das famílias com o cartão de crédito consome 54% do orçamento familiar, além de consumir 6,3% da renda dos brasileiros apenas com juros.
“Trata-se de uma das linhas mais caras do sistema financeiro, contribuindo de forma decisiva para a elevação do custo médio do crédito às famílias”, apontam os analistas. Com isso, o acúmulo de juros torna a dívida progressivamente mais difícil de ser quitada. A inadimplência do cartão de crédito retroativo já alcança 64%.
O relatório do FGV Ibre ressalta, porém, que a taxa Selic elevada não é o único fator por trás do alto custo do crédito.
Também influenciam elementos como o custo de captação dos bancos, a inadimplência, despesas administrativas, tributos, contribuições ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e as margens financeiras das instituições.
Em outras palavras, o custo final do crédito no Brasil reflete não apenas o ambiente macroeconômico, mas também a eficiência da intermediação financeira.
Nesse contexto, a inadimplência desempenha papel central: quando aumenta, eleva o risco das operações e pressiona ainda mais as taxas, criando um ciclo de retroalimentação.
Essa dinâmica indica que o alto custo do crédito e o elevado endividamento das famílias têm caráter estrutural e também desigual.
Enquanto grandes empresas e o setor público se financiam via mercado de capitais, com condições mais favoráveis, as famílias seguem dependentes do crédito bancário tradicional, mais caro e sensível às variações da política monetária.
Diante disso, os analistas defendem uma agenda de políticas públicas em duas frentes. A primeira envolve a redução do custo do crédito e a melhoria da qualidade do endividamento, com incentivo à migração para linhas mais baratas e o fortalecimento de mecanismos de prevenção ao superendividamento.
A segunda passa pela construção de trajetórias fiscais críveis e pelo controle da inflação - algo que não se confirmou em março, quando o IPCA subiu 0,88%, acima do esperado, pressionado pelo chamado “efeito guerra”.
Esse resultado já afeta as expectativas para a política monetária. Segundo André Braz, economista do FGV Ibre, há alta probabilidade de nova pressão inflacionária em abril: “Se abril de 2026 vier acima de abril de 2025, a inflação se aproxima ainda mais do teto da meta de 4,5%”.
Caso esse cenário se confirme, as projeções para 2027 e 2028 também podem ser revisadas. O último Boletim Focus já elevou a expectativa de inflação para 3,80% no próximo ano, acima do centro da meta estabelecida pelo Banco Central.
O problema de uma inflação persistentemente elevada é que ela tende a manter os juros altos por mais tempo. E, segundo os analistas, juros reais mais baixos são condições essenciais para um sistema de crédito mais equilibrado.
Fonte: CNN Brasil - 20/04/2026
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