Juro alto endivida, trava consumo e faz varejo enfrentar voo de galinha
Publicado em 15/04/2026 , por CNN Brasil
Especialistas ouvidos pelo CNN Money alertam para inadimplência como entrave ao comércio
O patamar de endividamento familiar no Brasil em 2026 acende o alerta vermelho para alguns setores da economia, como o varejo, que teme a trava do consumo gerada por um cenário que combina inadimplência e juros elevados.
Ao mesmo tempo, o Brasil vive o melhor momento para empregos da série histórica, com a taxa de desocupação nas mínimas. A massa de renda também é destaque, com recorde de R$ 354,564 bilhões até dezembro de 2025.
Guilherme Freitas, economista-chefe da Stone, avalia esse cenário como uma dicotomia que cria uma espécie de "voo de galinha" para setores como o varejo, que dependem do consumo.
O economista ressalta que setores que dependem do crédito passam por uma trava, o que torna a previsão do futuro do varejo no Brasil difícil de ser cravada. Entretanto, Freitas acredita que o aquecimento no mercado de trabalho equilibre o jogo, fazendo o setor andar de lado.
"É difícil que o varejo enfrente uma queda livre, porque o mercado de trabalho o sustenta. Mas é difícil que ele avance fortemente, porque o mercado de crédito não deixa", explica o porta-voz da Stone.
Com cada vez mais empregos, a renda familiar e o acesso ao crédito avançam, estimulando o consumo. Não à toa, o varejo passou por um crescimento de 5,5% em março e 6,4% ante 2025, segundo o Índice de Varejo Stone.
Apesar dos dados positivos para o setor, Guilherme Dietze, assessor econômico da FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo), cita que a complicação inicia quando esse estímulo se torna inadimplência, principalmente em uma estrutura financeira e econômica instável.
O cenário para os varejistas é de "pressão de capital de giro que provoca sortimento mais restrito e mais pressão por eficiência operacional", segundo Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores.
Juros altos pressionam o varejo
Até a metade final de março, a Selic estava no maior patamar em duas décadas. Mesmo com o corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária do BC segue restritiva, com a taxa básica de juros do país em 14,75% ao ano.
E mesmo com as taxas elevadas, o brasileiro seguiu tomando empréstimos, como mostram dados do BC, que indicam recorde de saques por pessoas físicas no mês de dezembro de 2025. Enquanto isso, o comprometimento da renda das famílias com dívidas bateu o maior nível da série histórica do Banco Central em janeiro.
Em relatório divulgado na segunda-feira (13), o Banco Central apontou preocupação com o superendividamento das famílias brasileiras, classificando o movimento como um problema crescente no país.
A avaliação da autarquia é que a facilidade de acesso ao crédito, somada à falta de educação financeira leva muitos brasileiros a contraírem dívidas que não conseguem pagar.
Para o varejo, o impacto dos juros vem por canais diretos - encarecendo o custo das empresas - e indiretos - diminuindo o ímpeto de consumo das famílias -, explica João Vitor Gonçalves, economista da Geade (Gerência Executiva de Análise, Desenvolvimento Econômico e Estatístico) da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo).
"Em segmentos mais dependentes de parcelamento ou financiamento, como bens duráveis, veículos, material de construção e itens de maior valor, esse efeito tende a ser mais intenso", elenca Gonçalves, ressaltando que a PMC (Pesquisa Mensal do Comércio) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registrou queda de 3% na venda de veículos em 2025.
"Além disso, os juros elevados também aumentam o custo financeiro das empresas, afetando o capital de giro, os investimentos, a reposição de estoques e a expansão das operações. Em um ambiente como esse, o varejo costuma crescer em ritmo mais lento e com maior heterogeneidade entre segmentos", reforça.
O fato de que os juros elevam o comprometimento da renda com dívidas e estimulam uma postura mais cautelosa das famílias também é um sinal de alerta para o varejo, segundo o economista da CNC. Desse modo, aponta que o setor percebe impactos concretos na microeconomia por conta do cenário macroeconômico.
"Os dados mais recentes do IBGE mostram que o varejo fechou 2025 com crescimento de 1,6%, abaixo do resultado de 2024, enquanto o varejo ampliado, mais sensível ao crédito, acumulou apenas 0,1% no ano. Isso sugere que os segmentos mais dependentes de financiamento vêm sentindo de forma mais intensa os efeitos do ambiente monetário restritivo", observa Gonçalves
"Apesar disso, a intenção de consumo das famílias, medida pela pesquisa homônima da CNC, tem se recuperado desde outubro de 2025, o que ajuda a explicar certa resiliência do setor. [...] Ao mesmo tempo, indicadores da CNC mostram melhora recente da confiança de empresários (ICEC), o que indica algum alívio na percepção, mas ainda sem eliminar os efeitos de um custo de crédito elevado sobre a atividade", pontua.
Ana Paula Tozzi indica que o impacto tem um efeito dominó na cadeia de consumo como um todo, de modo que os comerciantes têm ajustado suas estratégias com:
- Redução de estoques;
- Foco em categorias de maior giro;
- Revisão de planos de expansão.
"Estamos em um ambiente que exige disciplina operacional e gestão nos mínimos detalhes", pontua a CEO da AGR Consultores.
Então, mesmo que o cenário seja de renda aquecida, o crédito se volta ao refinanciamento de dívidas e o consumo é restringido. "O varejo é afetado com isso", avalia Guilherme Freitas, da Stone.
A restrição do consumo, segundo Tozzi, gera um impacto "muitas vezes até mais relevante que o observado diretamente".
"Juros 'comem' a capacidade de o consumidor consumir mais. Com o crédito mais caro e parcelas mais pesadas, o consumidor fica mais inseguro financeiramente", conclui.
Fonte: CNN Brasil - 15/04/2026
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