Enquanto brasileiros dizem se endividar com bets, americanos deixam de poupar US$ 1 para cada dólar em apostas
Publicado em 10/04/2026 , por Folha Online
Novos estudos com alto rigor técnico conduzidos por instituições como o National Bureau of Economic Research (NBER), dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) de Nova York e o Australian Gambling Research Centre (AGRC) detalham a erosão sistemática na estabilidade financeira das famílias provocada pelas apostas online.
No Brasil, algumas pesquisas de opinião também indicam que as bets têm produzido estragos no orçamento das famílias e elevado o endividamento.
Levantamento do Instituto Locomotiva indicou que 25 milhões de pessoas passaram a fazer apostas eletrônicas entre janeiro e julho de 2024 —e que em cinco anos 52 milhões jogaram. Das pessoas que apostam, 86% afirmaram ter dívidas e 64% estariam negativadas na Serasa. Entre todos os endividados e inadimplentes no país, a pesquisa constatou que 31% jogam nas bets.
Outra pesquisa, do Instituto DataSenado, aponta que 42% dos brasileiros que dizem ter gasto alguma quantia em bets ao longo de um mês estavam endividados. O percentual engloba apostadores com contas atrasadas há mais de 90 dias.
Nos EUA, o marco para esse comportamento em relação aos jogos eletrônicos foi a decisão da Suprema Corte, em 2018, que garantiu aos estados o direito de regular o tema, levando à legalização em 38 das 50 unidades federativas.
Para mapear o fluxo do dinheiro, pesquisadores associados ao NBER, organização sem fins lucrativos que promove análises de ponta, utilizaram uma metodologia rígida baseada nos Merchant Category Codes (MCC).
Nos EUA, cada transação eletrônica carrega um código de quatro dígitos. Ao isolar as chaves 7801 (Internet Gambling) e 7995 (Apostas e Loterias), foi possível identificar com precisão o capital destinado a 11 grandes plataformas, como FanDuel e DraftKings, que dominam 70% do mercado.
O achado mais alarmante é o efeito de substituição direta: os dados mostram que cada US$ 1 gasto em apostas resulta em uma redução exata de US$ 1 na poupança e investimentos em outros ativos financeiros.
Isso provaria que o dinheiro das apostas não provém de uma renda extra, mas do sacrifício direto das reservas financeiras das famílias.
Enquanto o NBER focou no fluxo de caixa, o Fed de Nova York utilizou o Painel de Crédito ao Consumidor (CCP, na sigla em inglês), analisando uma amostra representativa de 5% de relatórios de crédito anônimos da Equifax, um dos três maiores bureaus de crédito dos EUA.
Os resultados mostram que a legalização elevou os gastos em jogos online e em casas de apostas em aproximadamente dez vezes.
Cerca de 30% dos adultos americanos participam de apostas online, número que sobe a 60% considerando loterias, cassinos e bingos físicos, entre outros.
O trabalho identificou que, ao começarem a jogar online, a taxa de inadimplência média dessas pessoas aumenta em dez pontos percentuais, o que representa quase o dobro da taxa base.
O impacto é desproporcionalmente maior entre pessoas com menos de 40 anos, que registraram aumentos mais elevados na inadimplência de cartões de crédito e em financiamentos de veículos.
Além disso, o Fed identificou o "efeito de transbordamento": moradores de estados onde a prática em ambientes online e físicos é ilegal atuam ou se deslocam para estados vizinhos para apostar, gerando gastos que equivalem a 15% do volume total dessas áreas. Mas eles "exportam" a inadimplência para suas regiões de origem.
Desde 2018, já foram realizados mais de US$ 500 bilhões em apostas nos EUA. Embora os estados tenham arrecadado quase US$ 3 bilhões em impostos em 2024, os estudos sugerem que o custo social, de destruição da poupança, da inadimplência e de crises na saúde mental pode superar os benefícios fiscais imediatos.
O impacto financeiro ganha contornos mais dramáticos na Austrália, que detém as maiores perdas per capita do mundo com apostas, totalizando 32 bilhões de dólares australianos (US$ 20,8 bilhões) anuais.
O National Gambling Prevalence Study 2024, com 3.881 adultos, revelou que 65,9% dos jogadores de alto risco enfrentam dificuldades financeiras extremas, chegando a situações de pular refeições ou deixar de pagar contas essenciais.
Pesquisa do Australian Gambling Research Centre vincula o vício a danos sociais profundos: a prevalência de violência doméstica é quase três vezes maior em lares com apostadores frequentes (18,9% contra 6,8% onde não há o hábito). Além disso, 15,5% dos jogadores de alto risco relataram pensamentos suicidas.
No Brasil, outro levantamento, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), sustenta que o setor enfrentou perda de R$ 103 bilhões do faturamento anual potencial de 2024 com o redirecionamento dos recursos das famílias para os jogos.
A pesquisa diz que 1,8 milhão de brasileiros entraram em situação de inadimplência por comprometer a renda com as bets. Mas, na comparação com estudos internacionais, faltam maior rigor e exposição explícita de dados nas análises nacionais.
Em outubro de 2024, o próprio Banco Central afirmou que não havia garantias de que estudo seu indicando que beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões via Pix para empresas de apostas esportivas online não estava sujeito a falhas.
Outro trabalho, do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School afirma que as bets estão assumindo protagonismo no avanço do endividamento das famílias e já superam os efeitos tradicionais associados aos juros e à expansão do crédito.
A análise, de 2011 a 2025, combina dados oficiais como endividamento, renda e massa salarial com indicadores de interesse por apostas captados em redes sociais. Na prática, analisa conversas sobre bets na internet, mas não apresenta dados sólidos e exclusivos de volumes apostados.
Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, as empresas de apostas esportivas e jogos online faturaram R$ 17,4 bilhões de janeiro a junho do ano passado.
Fonte: Folha Online - 09/04/2026
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