Estímulos à economia devem ultrapassar R$ 700 bi em 2026, ano eleitoral
Publicado em 06/04/2026 , por Folha Online
A atividade econômica brasileira deverá receber em 2026, ano eleitoral, estímulos que somarão R$ 742 bilhões, um crescimento de 139% na comparação com 2025 e o equivalente a 5,4% do PIB (Produto Interno Bruto).
A estimativa é da gestora ARX Investimentos, que aponta que o montante é puxado pela concessão de mais crédito pelo BNDES, pela expansão do consignado privado e pelo caixa de estados e municípios.
Lideram a lista ainda o uso pelo governo de fundos públicos e privados com participação da União para turbinar gastos e crédito, além da ampliação da isenção do Imposto de Renda para aqueles que ganham até R$ 5.000.
O cálculo leva em conta apenas os gastos não obrigatórios, projetando os estímulos adicionais do governo à demanda, que inclui o consumo das famílias e os investimentos. Inclui os incentivos fiscais contabilizados no Orçamento e estima as medidas parafiscais, aquelas promovidas pelo governo, mas sem impacto no resultado primário, além daqueles via crédito.
"Esse excesso de estímulos à demanda mantém a economia crescendo em ritmo incompatível com o seu equilíbrio, pressionando a inflação, que corrói a renda, e produzindo juros mais elevados", diz Gabriel Barros, economista-chefe da ARX. "Isso amplia o custo financeiro e o comprometimento de renda das famílias, piorando a trajetória da dívida pública."
Para o economista André Perfeito, a série de incentivos à atividade econômica, que se alia a um cenário de desemprego em mínima histórica, pode não gerar o efeito desejado sobre a economia por causa da taxa básica de juros elevada, hoje em 14,75% ao ano.
"Estimular investimentos de longo prazo é importante. Mas o Brasil vive um momento de sobreaquecimento da economia. É muita energia no motor, mas ela não se reflete em tração na roda, porque os empresários não conseguem investir e as famílias estão endividadas pelos juros altos."
Para este ano, a projeção de especialistas em contas públicas é que a alta das receitas com royalties do petróleo deverá ajudar o governo a cumprir a meta fiscal, ainda que com subterfúgios, como o abatimento de precatórios.
Mas o cenário fiscal se complica a partir do próximo ano: economistas e investidores apontam que a relação dívida/PIB, hoje em 79,2%, segundo dados do Banco Central, caminha para iniciar 2027 acima de 83%.
"Todos os pré-candidatos precisam ter consciência de que será inescapável um plano de contenção de gastos para o ano que vem", alerta Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo.
O temor do mercado financeiro é que a polarização política amplie ainda mais o arsenal de medidas para estimular a economia.
A mais recente pesquisa do Datafolha, divulgada em 7 de março, mostrou Flávio Bolsonaro (PL) empatado tecnicamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em simulação de segundo turno: o presidente tem 46%, ante 43% do rival.
Para Barros, entre os principais riscos estão possíveis incentivos aos caminhoneiros por causa da alta do diesel ou eventuais ações para limitar os juros do cartão de crédito, como defende Lula.
"O governo tem buscado caminhos para transferir mais renda às famílias e manter a economia aquecida. Isso pesa o cenário para 2027. Como tem muito benefício concedido, é difícil, do ponto de vista político, retirar depois."
Ele ressalta que o aumento de gastos em anos eleitorais não é privilégio de nenhum partido. "Quando há polarização política, o populismo fiscal aumenta, seja qual for a coloração partidária do governo."
Um estudo feito em 2024 pelos economistas Alexandre Manoel, Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Samuel Pessôa —os três últimos, colunistas da Folha— ajuda a entender essa dinâmica.
O levantamento, que considerou os governos Dilma Rousseff (2011-2016) e Jair Bolsonaro (2019-2022), mostra que os gastos públicos cresceram no ano da disputa da reeleição, com o uso de mecanismos para tentar encobrir esse aumento de despesas.
"Os principais custos que se tem em períodos eleitorais é que o governo costuma usar o fiscal para impedir que potenciais perdas de bem-estar cheguem aos trabalhadores. Com isso, protege o seu capital eleitoral", diz Manoel, ex-secretário nos ministérios da Fazenda e da Economia (2018-2020) e sócio na Global Intelligence and Analytics.
O atual cenário político conturbado também acaba sendo um incentivo extra a mais gastos, na visão de investidores.
"Há uma guerra interna, com o caso Master, extraordinário pelo volume de dinheiro envolvido, atingindo os três Poderes", diz Ricardo Campos, CEO da gestora Reach Capital. "E, em um cenário em que um leão está solto, você põe o tênis para correr."
Apesar das preocupações fiscais, a avaliação é que a dívida pública não está tão ameaçada através do canal de transmissão do câmbio —quando o dólar sobe muito, os produtos aumentam de preço e as pressões inflacionárias elevam os juros.
Isso porque o Brasil é um país altamente exportador de petróleo, o que tende a amortecer o choque da disparada da commodity por causa da guerra no Oriente Médio, ajudando no fluxo de dólares para o país.
"Os estrangeiros vêm atrás de um país que não tem um alto risco geopolítico e que é um grande exportador de petróleo", diz Campos.
Barros, da ARX, afirma que atualmente há poucas opções de alocação em países emergentes para os investidores globais, o que confere atratividade ao Brasil.
"Na China, por exemplo, o setor de educação e tecnologia possui um risco institucional de intervenção. A Turquia já interferiu na política monetária e cambial", lembra Barros. "O Brasil não precisa ser o mais bonito da festa, apenas o menos feio."
Procurado pela reportagem, o Ministério da Fazenda afirmou que dados de um estudo feito pela pasta no ano passado mostram que o impulso de todos os gastos públicos à economia foi negativo durante a maior parte de 2025, "em consonância com o ciclo econômico mais aquecido e em coordenação com a política monetária".
"Para 2026, diante da expectativa de desaceleração da atividade, é esperado um impulso positivo, também em coordenação com o ciclo econômico e com a política monetária", disse o ministério, em alusão ao início da queda da taxa básica de juros.
A pasta disse ainda que as regras fiscais vigentes garantem previsibilidade e disciplinam o crescimento das despesas, "inclusive em anos eleitorais". "A estabilização da dívida está no horizonte e é compatível com a estratégia de consolidação gradual adotada pelo governo."
Fonte: Folha Online - 06/04/2026
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