Relatório compara golpes online a remédio vencido e defende responsabilizar plataformas
Publicado em 30/03/2026 , por Folha Online
A professora da Universidade Columbia Anya Schiffrin e outros pesquisadores defendem, em relatório, que redes sociais deveriam ser legalmente obrigadas a prevenir golpes financeiros online, um problema que causa prejuízos estimados em centenas de bilhões de dólares no mundo.
"Governos não esperam que os consumidores sejam capazes de reconhecer aspirina vencida ou brinquedos perigosos por conta própria", escreve Schiffrin em "Deepfake Financial Fraud" ("fraude financeira com deepfakes").
Para ela, o mesmo princípio deveria valer no ambiente digital: as plataformas são as que têm mais capacidade de inibir as fraudes, e, por isso, deveria haver leis que as obrigassem a agir.
O argumento central do relatório se ancora em uma ideia da análise econômica do direito formulada por Guido Calabresi, segundo a qual a responsabilidade deve ser atribuída a quem consegue prevenir o problema com menor custo.
Na prática, isso significaria transferir para empresas como a Meta e o Google o dever de conter fraudes que hoje circulam livremente em seus sistemas de anúncios e recomendação.
A popularização das deepfakes —imagens e vídeos gerados por inteligência artificial que imitam pessoas reais— agravou esse cenário. O relatório reúne casos em diversos países e aponta para um fenômeno global.
"Minha mãe, que tem 89 anos, recebe mensagens no Facebook de homens que se passam por solitários veteranos do Exército e as amigas dela recebem várias ligações de estelionatários que fingem ser os netos precisando de dinheiro", afirma Schiffrin em email à reportagem.
"E a responsabilização das plataformas ajudaria muito, considerando a evidência que temos de que a Meta, por exemplo, só toma medidas quando está sob pressão."
Ela cita uma série de reportagens da agência de notícias Reuters segundo as quais a Meta arrecada US$ 16 bilhões (R$ 83,2 bilhões) ao ano com anúncios fraudulentos, além da tendência de seus algoritmos de direcionar mais golpes a usuários já vulneráveis —a tecnologia mostra propaganda a quem tem maior chance de clicar.
A Meta disse, na ocasião, que as reportagens, baseadas em documentos internos da big tech, citam dados fora de contexto.
"Para nós, é evidente que a Meta está numa posição excelente para fazer muito mais do que faz para impedir a distribuição desses anúncios. A verificação de identidade de todos os anunciantes seria uma opção eficaz, mas a Meta reluta em pagar por ela", afirma Schiffrin.
Nesse modelo, os anunciantes teriam que comprovar quem são antes que a plataforma veiculasse o anúncio. O Google anunciou em 2020 que adotaria a prática de verificação universal e, hoje, mais de 90% dos anunciantes passam pela etapa de validação.
As plataformas não devem ser os únicos objetos de regulação, segundo os autores. O relatório recomenda medidas para aplicativos de mensagens criptografadas, como WhatsApp e Telegram, e para as operadoras de telefonia.
A pesquisa partiu da ideia de que existe uma linha de produção por trás dos golpes.
"As fraudes são criadas, depois distribuídas, e então as vítimas são persuadidas a entregar seu dinheiro. Em seguida, os chefões —muitas vezes na China ou em Israel— lavam o dinheiro por meio de cassinos e imóveis. Ou seja, muitas coisas precisam acontecer", afirma a professora.
O livro reúne exemplos de medidas para tentar interromper esse ciclo. México e Malásia, por exemplo, estão limitando o número de chips telefônicos que as pessoas podem comprar.
Taiwan, Singapura e Austrália investem em transparência, enquanto Reino Unido e Austrália apostam em um dever de cuidado similar ao que o STF (Supremo Tribunal Federal) propôs no novo entendimento do Marco Civil da Internet —as plataformas precisariam prestar contas de que se esforçam para evitar crimes.
Mesmo os aplicativos de mensagem, que não conseguem ler o conteúdo dos diálogos, poderiam reduzir as fraudes verificando a identidade dos usuários, limitando o encaminhamento em massa e adotando barreiras nas etapas de pagamento, diz a pesquisadora Anusha Wangnoon, uma das coautoras do relatório.
Também seria importante reforçar os atuais mecanismos contra lavagem de dinheiro e evasão fiscal, afirmam.
"O problema do crime virtual exige cooperação além das fronteiras", diz Schiffrin. Devido à gravidade do problema, a busca por uma solução consensual deveria superar barreiras partidárias, afirma.
"Os danos não se limitam ao dinheiro, mas incluem também o prejuízo à reputação das pessoas cujas identidades são falsificadas, além de danos sociais mais amplos causados pela erosão da confiança pública —os golpes corroem a fé no sistema."
Fonte: Folha Online - 28/03/2026
Notícias relacionadas
- 22/05/2026 Combustível contaminado, inflação e Evo Morales: entenda a crise que assola a Bolívia
- 22/05/2026 Receita paga R$ 16 bilhões em restituição a 8,7 milhões de contribuintes, o maior lote da história
- 22/05/2026 Desenrola 2.0: ministro da Fazenda diz que um milhão de pessoas já foram beneficiadas pelo programa
- 22/05/2026 Durigan: Não devemos fazer terra arrasada da nossa principal potência
- 21/05/2026 Governo amplia de seis para dez anos o prazo para renegociação de dívidas rurais, diz Fazenda
- 21/05/2026 Como declarar bets e prêmios de loteria no IR?
- 20/05/2026 Fim da taxa das blusinhas gera buscas sobre quem criou tributo e cobrança em lojas online
- 20/05/2026 Após golpe de construtoras, vítimas ficam com obras inacabadas e em dívidas com financiamentos: 'o sonho virou pesadelo'
- 20/05/2026 Consumidores de 22 distribuidoras de energia elétrica vão ter desconto na conta de luz este ano
- 19/05/2026 Caso Ypê: quando a contaminação encontra a polarização
Notícias
- 22/05/2026 Receita paga R$ 16 bilhões em restituição a 8,7 milhões de contribuintes, o maior lote da história
- Dados de segurados do INSS vazam após falha de segurança
- Desenrola 2.0: ministro da Fazenda diz que um milhão de pessoas já foram beneficiadas pelo programa
- Aneel dá aval e oficializa parte de megaleilão do governo Lula que contratou R$ 515 bi de energia
- Datafolha: 68% dos endividados acham que vão se beneficiar do Desenrola 2.0
- Dados de segurados do INSS vazam após falha de segurança
- Durigan: Não devemos fazer terra arrasada da nossa principal potência
- Aneel confirma contratação de termelétricas de leilão de reserva de energia
- Aposentados do INSS vão receber R$ 2 bilhões em atrasados da Justiça; veja quem tem direito
Perguntas e Respostas
- Quanto tempo o nome fica cadastrado no SPC, SERASA e SCPC?
- A consulta ao SPC, SERASA ou SCPC é gratuita?
- Saiba quais os bens não podem ser penhorados para pagar dívidas
- Após quantos dias de atraso o credor pode inserir o nome do consumidor no SPC ou SERASA?
- Protesto de dívida prescrita é ilegal e dá direito a indenização por danos morais
- Como consultar SPC, SERASA ou SCPC?
- ACORDO - Em caso de acordo, após o pagamento da primeira parcela o credor é obrigado a tirar o nome do devedor dos cadastros de SPC e SERASA ou pode mantê-lo cadastrado até o pagamento da última parcela?
- CHEQUE – Não encontro à pessoa para qual passei um cheque que voltou por falta de fundos. O que posso fazer para pagar este cheque e regularizar minha situação?
- Problemas com dívidas? Dicas para você não entrar em desespero
- PROTESTO - Qual o prazo para o protesto de um cheque, nota promissória ou duplicata? O protesto renova o prazo de prescrição ou de inscrição no SPC e SERASA?
- Cartão de Crédito: Procedimentos em caso de perda, roubo ou clonagem
- O que o consumidor pode fazer quando seu nome continua incluído na SERASA ou no SPC após o pagamento de uma dívida ou depois de 5 anos?
- Posso ser preso por dívidas ?
- SPC e SERASA, como saber se seu nome está inscrito?
- Acordo – Paga a primeira parcela nome deve ser excluído dos cadastros negativos (SPC, SERASA, etc)
