PIB acima do esperado, dívida em alta: o balanço da gestão Haddad em 10 gráficos
Publicado em 19/03/2026 , por G1
Haddad, que deixará o Ministério da Fazenda nesta sexta-feira (20), encerra sua gestão com a inflação controlada e o mercado de trabalho aquecido, mas com as contas públicas ainda sob forte preocupação de economistas.
Fernando Haddad (PT) deixará o Ministério da Fazenda nesta sexta-feira (20). Ao longo de sua gestão, a economia apresentou resultados melhores do que o esperado — com crescimento do PIB, inflação controlada e mercado de trabalho aquecido. Mesmo assim, a relação entre o ministro e o mercado financeiro ficou marcada por altos e baixos.
Pouco mais de três anos após assumir a pasta, economistas avaliam que Haddad não avançou em reformas importantes para melhorar a economia no longo prazo. O principal problema foi a dificuldade de controlar os gastos públicos, marcada por revisões e mudanças nas metas.
Nesta reportagem, veja o que os números da economia mostram sobre a passagem de Haddad pelo Ministério da Fazenda.
O calcanhar de Aquiles
Embora Haddad tenha conquistado parte do mercado financeiro no início do mandato — com um discurso focado em melhorar as contas públicas e controlar gastos — seus planos acabaram enfrentando resistências dentro do próprio governo.
Nos primeiros dias de governo, em 2023, Haddad chegou a afirmar que “não aceitaria” o déficit previsto para aquele ano e que trabalharia para reduzi-lo.
A aprovação do arcabouço fiscal, ainda em 2023, foi um passo importante para mostrar o compromisso do ministro com as contas públicas. Mas o resultado fiscal daquele ano — com déficit de R$ 249 bilhões — acabou pesando na avaliação do mercado.
Segundo o economista-chefe da Warren Investimentos e ex-secretário da Fazenda de São Paulo, Felipe Salto, embora Haddad tenha herdado despesas do governo Bolsonaro (PL) que precisaram ser pagas em 2023, o ministro também tem parte da responsabilidade pelo aumento dos gastos naquele ano.
No ano seguinte, o déficit caiu para R$ 47,6 bilhões — uma redução de mais de 80% em relação a 2023. Mesmo assim, problemas no orçamento, dificuldade para cortar gastos e a autorização de despesas fora da meta fiscal voltaram a reduzir a confiança do mercado em Haddad.
Em abril de 2024, por exemplo, o governo propôs reduzir as metas de superávit primário para os anos seguintes no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Com isso, o superávit que era esperado para 2025 passou a ser previsto apenas para 2026.
A medida abriu espaço para aumento dos gastos públicos e foi duramente criticada pelo mercado financeiro.
Arrecadação em alta – e gastos também
Apesar dos esforços de Haddad para manter a confiança nas contas públicas, especialistas dizem que faltaram medidas concretas para cortar despesas.
O ministro fez uma nova tentativa de cortar gastos em novembro de 2024, ao anunciar um pacote de medidas que previa economizar R$ 70 bilhões em dois anos.
O gesto, porém, não foi suficiente para recuperar a confiança do mercado. Isso porque também foi anunciado, no mesmo dia, o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. A promessa de campanha de Lula foi vista imediatamente como um novo gasto.
Entre as medidas que ajudaram a aumentar a arrecadação estão mudanças em impostos, como o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a chamada “taxa das blusinhas”, que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
Segundo dados do Banco Central, desde o início do mandato de Haddad a dívida bruta do governo em relação ao PIB subiu cerca de sete pontos percentuais, para 78,66%. Para este ano, a previsão do Tesouro Nacional é que a dívida chegue a 83,6%.
“Não chegamos a uma situação fiscal desastrosa, mas o déficit primário do governo ainda não é compatível com uma trajetória sustentável da dívida”, completa Salto.
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Apesar das dificuldades para cortar gastos, os especialistas ouvidos pelo g1 reconhecem o mérito de Haddad na defesa e na aprovação da reforma tributária, após três décadas de discussões no Congresso.
A reforma, aprovada em dezembro de 2023, criou um imposto sobre valor agregado (IVA), definiu uma cesta básica nacional isenta de tributos e estabeleceu o Imposto Seletivo, conhecido como “imposto do pecado”.
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“Essa é uma reforma extremamente difícil e que, no início, poucos acreditavam que sairia do papel. Ainda não é o modelo ideal, mas deve gerar efeitos positivos para a economia ao longo do tempo e conta a favor de Haddad”, afirma Ribeiro, da Tendências.
Os especialistas, porém, dizem que ainda há um longo caminho para completar a reforma tributária no país.
Segundo o economista e coordenador do curso de administração pública da Fundação Getulio Vargas (FGV), Nelson Marconi, uma parte importante que ainda precisa ser discutida é a reforma sobre a renda.
“O governo poderia ter feito uma reforma tributária mais ampla, que também incluísse a tributação da renda e a revisão de despesas e desonerações. A taxa de 10% sobre a renda dos mais ricos é um passo, mas ainda é insuficiente”, afirma.
Contra as previsões, crescimento
A dificuldade para implementar um plano de gastos mais alinhado ao que o mercado esperava, porém, não impediu que Haddad entregasse crescimento e inflação melhores do que o previsto.
Durante seu mandato, o PIB cresceu acima das projeções do mercado em todos os anos. A inflação também ficou dentro do intervalo de tolerância da meta em dois dos três anos em que esteve à frente da Fazenda — muito em virtude do rigor do Banco Central em manter juros mais altos, apesar das pressões do governo federal.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB do Brasil cresceu 2,3% em 2025. O resultado representa uma desaceleração em relação ao ano anterior, mas marcou o quinto ano seguido de crescimento da economia.
Parte dessa desaceleração também é reflexo dos juros elevados, que estão em 15% ao ano desde junho de 2025.
"A política monetária restritiva [juros altos] e o alto endividamento das famílias, que bateu recorde no ano passado, têm puxado um pouco o consumo para baixo", afirmou Rebeca Palis, coordenadora de contas nacionais do instituto, em coletiva de imprensa para falar sobre o resultado do PIB. Segundo ela, o alto nível da Selic foi o "vilão" do PIB no ano passado.
Apesar dos juros elevados, o mercado financeiro avalia que o BC fez bem em não ceder.
Nesse ponto, o ministro também ajudou a manter a inflação controlada nos últimos anos — mesmo com uma meta considerada exigente, de 3%.
“Hoje vemos as expectativas caminhando para níveis mais baixos, e em nenhum momento houve descontrole da inflação ou sinal de que o governo tenha abandonado o compromisso de mantê-la sob controle”, completa.
Por fim, os especialistas consultados pelo g1 também destacam os bons resultados do mercado de trabalho e da renda como parte do legado de Haddad.
“Esse é um indicador ligado ao crescimento da economia e que também ficou melhor do que o mercado previa. O mercado de trabalho está realmente muito positivo”, avalia Alessandra Ribeiro, da Tendências.
Segundo o IBGE, a taxa média de desemprego no Brasil ficou em 5,6% em 2025 — o menor nível da série histórica, iniciada em 2012.
Já o rendimento médio real das pessoas ocupadas foi estimado em R$ 3.560, alta de 5,7% em relação a 2024.
Fonte: G1 - 18/03/2026
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