Crise no petróleo não é novidade para o Fed, mas agora pode ser diferente
Publicado em 16/03/2026 , por CNN Brasil
Maior choque petroleiro desde 1973 coloca banco central americano em situação delicada entre inflação e desaceleração econômica
A pior crise global do petróleo em décadas pode se tornar um grande problema para o Fed (Federal Reserve), cujos formuladores de política se reúnem esta semana para determinar os próximos passos para a economia dos EUA.
A guerra do presidente Donald Trump contra o Irã fez os preços do petróleo dispararem, com o WTI, o índice de referência do petróleo americano, atingindo brevemente $120 na semana passada, ameaçando aumentar o custo de praticamente tudo o que os americanos compram.
Ao mesmo tempo, esses custos mais altos de energia podem pressionar empresas e famílias, desacelerando as contratações e estagnando o crescimento econômico.
Essa dupla ameaça de inflação mais alta e enfraquecimento do mercado de trabalho está colocando os funcionários do Fed em um cenário sem saída, justamente quando Kevin Warsh, escolhido por Trump para liderar o banco central, aguarda confirmação do Senado — em um momento extremamente inoportuno para qualquer autoridade argumentar por taxas de juros mais baixas.
O Fed não enfrentava um choque do petróleo tão severo desde a Guerra Árabe-Israelense de 1973, que desencadeou o notório episódio de estagflação daquela década.
Mas a economia americana parece muito diferente hoje e é improvável que seu banco central responda da mesma forma que os formuladores de política fizeram há meio século, quando aumentos agressivos nas taxas empurraram a economia para a recessão.
Comparando os choques do petróleo
Como o maior país produtor de petróleo do mundo, os Estados Unidos são muito menos dependentes de petróleo importado do que eram durante as crises energéticas anteriores.
Mas a perturbação nos mercados globais de energia desta vez é maior, dizem os especialistas.
"O volume total da produção de petróleo do Golfo que está atualmente bloqueada devido a esta guerra é muito maior do que era naquela época", disse Nicholas Mulder, professor de história da Universidade Cornell que pesquisa os impactos econômicos das guerras, à CNN.
"Estamos falando de 20 milhões de barris versus cerca de quatro milhões e meio em 1973, então isso é realmente várias vezes maior."
Em outubro de 1973, Egito e Síria realizaram um ataque surpresa a Israel em um conflito que rapidamente se intensificou e acabou envolvendo os Estados Unidos.
Os membros árabes da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) cortaram o fornecimento para as nações ocidentais em retaliação.
Isso infligiu dor significativa à economia dos EUA, que era fortemente dependente de petróleo estrangeiro na época.
Sob o então presidente do Fed Arthur Burns, os formuladores de política resistiram a aumentar as taxas de juros, argumentando que os vários fatores que elevavam a inflação na época — incluindo o choque do petróleo — estavam em grande parte fora do alcance da política monetária
Embora o Fed tenha eventualmente aumentado as taxas, fez isso de forma intermitente. Economistas agora dizem que foi essa abordagem "para e volta" que permitiu que a inflação se enraizasse e fez pouco para sustentar o crescimento.
Um economista captou esse sentimento em uma apresentação feita em uma das reuniões de definição de taxa do Fed na época:
"A questão é se a política monetária poderia ou deveria fazer algo para combater uma taxa residual persistente de inflação. A resposta, eu acho, é negativa. Parece-me que devemos considerar os aumentos contínuos de custos como um problema estrutural não sujeito a medidas macroeconômicas."
Mas agora a América é o principal produtor mundial de petróleo e tem uma economia baseada em serviços, o que significa que está menos vulnerável aos cortes na produção global de petróleo.
E os funcionários do Fed, aprendendo com os erros de Burns, agora acreditam amplamente que a política monetária desempenha um papel importante no gerenciamento de choques econômicos.
No entanto, "estamos em uma situação hoje em que instalações estão sob ataque de drones e mísseis iranianos", disse Josh Freed, vice-presidente sênior do programa de clima e energia da Third Way.
"Isso é um dano físico que pode levar um tempo para reparar, então isso torna potencialmente pior do que o embargo do petróleo dos anos 1970. Há muita incerteza em torno de tudo isso."
Americanos estão vendo o impacto
Os americanos já estão sentindo o aperto nos postos de combustível e a guerra começou a pesar nas expectativas das pessoas sobre o rumo da inflação: a última pesquisa de consumidores da Universidade de Michigan, divulgada na sexta-feira (13), mostrou que o sentimento diminuiu 2% neste mês em relação a fevereiro, com consumidores citando cada vez mais a guerra em suas respostas.
Também não há muito espaço de manobra no mercado de trabalho. O Departamento de Estatísicas de Trabalho informou no início deste mês que os empregadores cortaram 92 mil posições em fevereiro, com a taxa de desemprego subindo para 4,4% de 4,3%.
Um relatório separado na sexta-feira mostrou que as vagas de emprego aumentaram em 400 mil em janeiro em relação a dezembro, embora ainda haja mais pessoas desempregadas procurando trabalho do que vagas disponíveis.
"Há muito pouca dúvida de que haverá um efeito inflacionário" da guerra com o Irã, disse Tani Fukui, diretor sênior de estratégia econômica e de mercado da MetLife Investment Management
"Mas o quão grande será ainda é uma questão muito em aberto."
A questão para os americanos durante esta crise do petróleo não é apenas até onde os preços vão chegar, mas se o Fed pode confiar nas lições da história para impedir que a economia desmorone.
Fonte: CNN Brasil - 16/03/2026
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