Inadimplência de empresas cresce e aumenta caça a ativos ocultos
Publicado em 16/03/2026 , por Folha Online
O aumento na inadimplência empresarial e nos casos de recuperação judicial e extrajudicial elevou também a procura por métodos para identificar ativos "ocultos" que possam ser utilizados para pagar essas dívidas, segundo especialistas que participaram de investigações de empresas ligadas ao caso do Banco Master e à Operação Lava Jato.
Há hoje uma série de ferramentas públicas e privadas que auxiliam na identificação de fraudes e na busca por patrimônio de sócios ou de empresas coligadas que possam assumir essas obrigações.
A dificuldade em encontrar essas informações é um dos fatores que contribuem para que a execução de sentenças judiciais que determinam o pagamento de dívidas seja hoje um dos principais gargalos do Judiciário.
"Você ganha, mas não leva. Só leva quem fica esperto", afirma a advogada Mariana Zonenschein, especialista em litígios empresariais. "Para ter prioridade na fila para receber uma dívida é necessário incomodar o devedor."
Incomodar significa identificar contas bancárias, imóveis, veículos, sócios ocultos, empresas do mesmo grupo ou negócios sem registro público. Com essas informações, é possível buscar um acordo ou pedir a penhora ao juiz do processo. O importante, segundo especialistas, é chegar na frente de outros credores.
A advogada cita como exemplo o caso da Mendes Júnior, que está desde março de 2016 em recuperação judicial. Essa proteção contra credores, no entanto, não alcançou todas as empresas do grupo.
Por meio do levantamento de dados, foram apontadas companhias do mesmo grupo, com mesmo administrador e endereço, que foram acionadas pelos credores. Aqueles que possuíam a informação foram ao Judiciário cobrar a diferença entre os valores devidos e aquilo que receberam dentro do acordo firmado na recuperação judicial.
"Os credores que fizeram esse pedido puderam cobrar essa diferença das outras empresas. Quem não entrou precisou se submeter ao plano e receber aquilo que foi decidido, no prazo que foi decidido", afirma a advogada.
Em muitos casos, o devedor escolhe fechar um acordo e pagar a dívida antes que o credor busque a Justiça. Com isso, evita que aquela descoberta se torne pública e que outros utilizem a mesma informação para cobrar suas dívidas.
Luis Fernando Vega, sócio administrador da Inquest Tech, que atua em ações de recuperação de crédito, divórcios e inventários, afirma que 80% dos clientes acabam fechando acordos extrajudiciais.
Ele relata aumento na demanda por esses serviços diante de tantos casos bilionários de inadimplência. A empresa atua, por exemplo, em favor de clientes lesados nos casos do grupo Master e da Fictor.
Uma das estratégias é focar as pessoas físicas envolvidas, seus familiares e sócios. Por meio dos scores de crédito da conta bancária, por exemplo, é possível identificar sinais de que a pessoa está movimentando recursos por meio de laranjas para evitar o bloqueio de bens.
"Para descobrir batom na cueca, que pode ser uma fraude de execução, laranjas, uma doação em conluio familiar, tem de focar o CPF, não o CNPJ", afirma.
"Se você investiga uma pessoa que não é pobre, tem participação societária, marcas, patentes, veículos, imóveis, fazendas, escrituras etc., e o score é baixo, pode ter certeza que ela já parou de usar a conta corrente e cartão e nomeou um laranja."
Vega relata o caso de uma multinacional brasileira do setor de alimentos que tentava executar uma garantia —uma fazenda no Mato Grosso do Sul que estava em nome de um laranja. Mas foi possível identificar o real dono depois que foi detectado um pedido na Agência Nacional de Águas para instalação de sistema de irrigação, no qual constava o CPF do verdadeiro proprietário.
O cruzamento de dados pode revelar também "esqueletos", como ações que já interromperam operações de fusão e aquisição ou evitaram a contratação de administradores "enrolados com a Justiça", segundo o especialista.
Os levantamentos partem de poucos dados e consideram apenas informações não protegidas pela legislação. Em casos de recuperação de crédito, por exemplo, é possível detectar fraudes a partir do CPF investigado, datas em que foram feitos negócios com o credor e valores envolvidos. "Você não precisa de deep web, dark web e declaração de Imposto de Renda. É uma questão de inteligência de dados", afirma.
A advogada Mariana Zonenschein afirma que as empresas também precisam tomar medidas preventivas em relação à inadimplência. Para isso, é recomendável incluir em contrato cláusulas que garantam uma segurança extra, como a indicação de fiadores.
A legislação diz que o processo de recuperação judicial não protege os "coobrigados". Com isso, é possível seguir em paralelo na execução contra eles para receber a parte que não será paga dentro do acordo com os demais credores.
"O inadimplemento tem que ser olhado lá no início. Se você deixar para pensar só na hora em que ele ocorre, estará em desvantagem em relação àquelas pessoas que já estão preparadas", afirma a advogada.
A inadimplência corporativa atingiu em 2025 o maior patamar da série histórica da Serasa. São 8,9 milhões de empresas, com dívidas negativadas de R$ 213 bilhões. O saldo do ano foi um acréscimo de 2 milhões de companhias no vermelho, quase 30% de aumento. Micro e pequenas empresas representavam 96% das inadimplentes.
Dados do monitor RGF apontaram 5.680 companhias em recuperação judicial, alta de 25% no ano. Foram protocolados 78 casos de recuperação extrajudicial, o maior número da série histórica do Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial.
Neste início de ano, além dos casos envolvendo o Master e empresas afetadas pela sua liquidação, houve os pedidos de recuperação extrajudicial da Raízen (o maior da história do Brasil) e do GPA (Grupo Pão de Açúcar), que está em quarto lugar no ranking de valores.
Fonte: Folha Online - 14/03/2026
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